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Crítica – Jogador Nº 1

Publicado:   Março 29, 2018   Categoria:Criticas , Filmes e séries , OpiniãoEscrito por:Renan Almeida

No ano de 2045 concebido em Jogador Nº 1, a realidade é tão deprimente que quase a totalidade da população gasta seu tempo em um mundo de realidade virtual chamado OASIS. Nele, o único limite é a própria imaginação dos jogadores. Quando o criador dessa tecnologia morre, inicia-se uma caça ao tesouro escondido por ele no mundo digital. Quem encontrar tal tesouro será agraciado com a propriedade da empresa multibilionária responsável pela realidade simulada.

Sem dúvida alguma, Jogador Nº 1, junto de Scott Pilgrim Contra o Mundo (2010), é uma das melhores homenagens aos videogames e à cultura pop já feitas. O curioso é observar que nenhuma das duas obras é adaptação de algum jogo específico. Enquanto uma se baseia nos quadrinhos de Bryan Lee O’Malley, a outra tem como base o romance de Ernest Cline. Abrindo com músicas dos anos 80, o novo filme de Steven Spielberg indica já nos primeiros minutos a atmosfera de nostalgia que guiará toda a história. Nesse sentido, o longa é quase um jogo de “identifique a referência”, já que traz menções a diversas obras do universo dos games, quadrinhos, música e cinema. É possível prever listas quase intermináveis de easter eggs escondidos no filme.

Com relação ao enredo, o espectador acompanha Wade Watts (Tye Sheridan), um jovem que vive em uma comunidade pobre com a tia e o namorado low-life desta e passa a maior parte do tempo conectado ao OASIS. Ele assume a identidade de Parzival e, com a ajuda de Art3mis e de seu melhor amigo Aech, busca desvendar os enigmas deixados por James Halliday (Mark Rylance), o criador do mundo imaginário. Como se vê, Jogador Nº 1 possui uma estrutura bastante simples, com uma narrativa que jamais foge do convencional. Em pelo menos um momento, conta com uma exposição que surge de maneira totalmente inorgânica e sem sentido, já que traz um personagem enunciando uma informação que já deveria ser de conhecimento de outro. E talvez esse seja o menor dos problemas do roteiro, que falha ao tentar conferir a seus protagonistas qualquer profundidade. Os pais de Samantha (Olivia Cooke) morreram, mas o acontecimento é referido quase que aleatoriamente, com a única função de estabelecer, de maneira desleixada, sua motivação. Quando, por outro lado, uma tragédia ocorre na vida de Wade, este não possui praticamente nenhuma reação, o que remove todo o impacto que o acontecimento poderia ter causado. Pelo contrário, o evento é percebido como desprovido de importância.

Apesar de previsível e inevitavelmente esbarrar em problemas lógicos (como, por exemplo, o fato de a ideia de Halliday ser um tanto estúpida e irresponsável, a polícia só aparecer quando é conveniente – onde estão as leis? – e ninguém mais parecer estudar ou trabalhar), o roteiro de Zak Penn e do próprio Cline é ao menos eficiente ao estabelecer a dinâmica entre os personagens. Isso também é mérito das atuações de Sheridan, Cooke e Lena Waithe, principalmente. Ben Mendelsohn, na pele do empresário Nolan Sorrento, faz um vilão genérico (cuja maior motivação é poder), mas que pelo menos conta com algumas nuances (pequenas, como o fato de possuir uma senha ridícula e precisar mantê-la anotada num pedaço de papel). Simon Pegg, por sua vez, está no filme quase como um extra.

Também conta a favor de Jogador Nº 1 a direção de Spielberg, que mantém a boa forma vista no bom The Post: A Guerra Secreta, de 2017. O diretor emprega música pop em diversos momentos, mas usa com sabedoria a trilha de Alan Silvestri, cuja presença neste projeto, inclusive, é quase um easter egg à parte, já que ele esteve por trás da música de diversos clássicos modernos, como a trilogia De Volta Para o Futuro (1985-1990). Deve-se destacar também a inserção da trilha de Wendy Carlos e Rachel Elkind, de O Iluminado (1980), em uma sequência que homenageia o clássico de Kubrick. A reconstrução do Overlook Hotel, aliás, é de encher os olhos de qualquer admirador do diretor perfeccionista.

Além disso, os efeitos visuais do filme são muito bons. O OASIS é concebido como um lugar no qual o espectador realmente deseja estar, inúmeras as possibilidades que oferece. Os trailers empilhados dos bairros pobres constituem um conceito interessante, assim como o refúgio do protagonista em meio a um ferro velho. O 3D é mais bem empregado aqui do que costuma ser em outras produções, mas não é, de modo algum, imprescindível. As cenas de ação são bastante caóticas, mas trata-se de um caos controlado, o que é mais um mérito de Spielberg.

Em síntese, Jogador Nº 1 é um filme com roteiro problemático (principalmente quando se pensa muito nele), mas com um valor de entretenimento tão grande que consegue tornar suas falhas quase irrelevantes. Quanto mais o espectador conhece as obras referenciadas, mais se engaja na trama e se diverte com esta, pois é recompensado por seu conhecimento (de modo parecido com o que acontece no filme). Contudo, mesmo alguém não muito ligado à cultura pop (algo bastante incomum nos dias de hoje) é perfeitamente capaz de se divertir e aproveitar o longa.

Nota: B+

Confira o trailer:

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