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Crítica – Blade Runner 2049

Publicado:   outubro 4, 2017   Categoria:Criticas , Filmes e séries , OpiniãoEscrito por:Renan Almeida

O Blade Runner dirigido por Ridley Scott é hoje, indiscutivelmente, um clássico da ficção científica. Possuindo diferentes versões desde o seu lançamento, o filme já teve até o seu final alterado. A versão original exibida nos cinemas, por exemplo, contava com uma narração de Deckard (personagem de Harrison Ford) e sobras de tomadas aéreas de O Iluminado (1980), além de um “final feliz” imposto pela Warner Brothers. Os demais cortes excluíram algumas cenas e incluíram outras. O último deles, contudo, foi o chamado The Final Cut, lançado em 2007, que, ao contrário do denominado Director’s Cut, de 1992, foi o único em que Ridley Scott teve completo controle artístico, sendo considerada a versão definitiva do filme. Essas duas últimas versões, inclusive, foram as responsáveis por trazer uma dúvida sobre a natureza do protagonista que até hoje intriga os fãs.

Os planos para a realização de um filme derivado de Blade Runner existem pelo menos desde o início dos anos 2000, mas foram frustrados por diferentes motivos. Em 2015, porém, uma continuação foi oficialmente anunciada sob a direção de Denis Villeneuve, responsável pelos ótimos Os Suspeitos (2013) e A Chegada (2016). Como nesses dois projetos, o cineasta canadense é extremamente eficaz na criação da atmosfera de Blade Runner 2049. Dessa vez, acompanhamos o policial K (Ryan Gosling), do Departamento de Polícia de Los Angeles, investigar um caso em que supostamente uma replicante deu à luz a um bebê, acontecimento que pode mudar significativamente a sociedade, possivelmente trazendo a ela o caos completo. A história, portanto, se passa trinta anos após os eventos do primeiro filme. Os androides do modelo Nexus-6 foram descontinuados, e a empresa que os criou, a Tyrell Corporation, foi à falência, tendo sido comprada pela companhia de Niander Wallace (Jared Leto), que passou a produzir novos modelos de replicantes. Assim, tanto a polícia de Los Angeles quanto Wallace estão em busca do filho gerado pela androide.

Respeitando o tempo inteiro o filme original, esta sequência faz jus ao excelente design de produção visto no longa de 1982. A cidade de Los Angeles é construída como uma metrópole gigantesca e caótica, abarrotada de letreiros luminosos e hologramas interativos, onde parece chover o tempo inteiro. O conceito de selva de concreto encontra aqui sua operacionalização. Como basicamente apenas os trabalhadores e os mais desafortunados (em todos os sentidos da palavra) permaneceram na Terra, vemos anúncios animados de produtos sexuais e prostituição por todos os lados. Essa megalópole retrofuturista é como uma versão piorada da Nova Iorque dos anos 1970, que vemos em filmes como Taxi Driver (1976), Mean Streets (1973) e The Warrios (1979). Todo o conceito original do Blade Runner de 1982 é mantido e aprimorado. Não somente o design da cidade de Los Angeles é belo e impressionante, mas todos os cenários do filme, desde a sala de Wallace até as ruínas de Las Vegas, proporcionando, com isso, uma imersão profunda naquele universo. Algo que é acompanhado pela excelente edição e mixagem de som, que criam uma Los Angeles extremamente barulhenta. A também ótima trilha de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch é utilizada competentemente na construção do clima crescente de tensão.

Trabalhando mais uma vez com o diretor de fotografia Roger Deakins, Villeneuve conta a história sem pressa, com planos longos o suficiente para a contemplação do espectador. A presença dos enormes billboards por toda a cidade permite a realização de um bom trabalho com as cores. Assim, o contraste entre a Los Angeles conturbada (na qual predomina uma paleta mais azulada) e as ruínas de Las Vegas (imersa numa paleta amarelada) é evidente, bem como a calmaria do branco da neve ao final do filme. São constantes os planos em que diferentes personagens encaram suas próprias mãos, merecendo destaque a rima visual entre duas cenas em momentos distintos da projeção, que envolvem ora a personagem de Ana de Armas, ora o de Ryan Gosling. As mãos deste, aliás, estão frequentemente sujas, numa metáfora clara sobre o trabalho dos caçadores de androides.

O roteiro assinado por Hampton Fancher e Michael Green é conciso, chegando até a aproveitar a oportunidade para dar uma pincelada em questões pertinentes do mundo contemporâneo, como o trabalho infantil que alimenta a produção de mercadorias de alta tecnologia. É curioso, a propósito, que isso apareça justamente em um filme de produção da Columbia Pictures, da Sony, já que esta (junto com a Apple e a Samsung) foi acusada pela Anistia Internacional de conivência com o trabalho infantil. Considerando também o quanto asiáticos estão presentes nas grandes metrópoles americanas no universo imaginado por Blade Runner, uma crítica à China não pode ser descartada. De todo modo, o roteiro é eficaz ao trazer novos personagens a um universo já estabelecido e fazer o espectador acreditar e se importar com eles. O filme ainda conta com uma cena que muito me lembrou de uma presente em Ela, de 2014. Há também alguma semelhança com o longa de Spike Jonze (o qual se passa na mesma cidade num futuro próximo) no que diz respeito a certos temas abordados.

Com um roteiro bem construído em mãos, Villeneuve mostra-se bastante à vontade para trabalhar mais uma vez com a ficção científica. Com um ritmo e planos muito similares aos da obra original, o cineasta não deixa de nos apresentar um filme seu, o que fica evidenciado pela presença da mesma atmosfera melancólica que caracteriza, por exemplo, A Chegada. O único deslize de Blade Runner 2049 é a inserção de falas repetidas para reforçar o entendimento de determinados elementos da narrativa, o que contrasta um pouco com a sutileza presente durante todo o filme. Isso, no entanto, chega a ser insignificante perto do poço de qualidades que ele apresenta.

Uma delas, diga-se de passagem, é o seu ótimo elenco. Ryan Gosling entrega satisfatoriamente os momentos-chave de K, que compõe com um andar cauteloso e um olhar sem esperança, enquanto Ana de Armas consegue conferir à sua Joi uma humanidade impressionante. Sylvia Hoeks e Jared Leto, por sua vez, constroem Luv e Wallace como figuras complexas, transmitindo verdade em suas motivações. Já Harrison Ford, mais uma vez ressuscitando um título clássico e de peso, não evita, em um momento ou outro, interpretar sua própria persona, mas seu Deckard segue silencioso e contido, como no primeiro filme. De todo modo, sua simples presença já põe um sorriso no rosto do espectador.

Em síntese, Blade Runner 2049 é uma sequência que mantém a essência do original e, ao mesmo tempo, traz o novo. Dirigido por um cineasta com um currículo admirável, o filme jamais se torna cansativo, apesar dos seus 163 minutos. Sem dúvida alguma, a sala de cinema proporcionará uma experiência muito melhor que a do home video, principalmente pelos aspectos sonoros deste longa, que são excelentes. Felizmente, este Blade Runner não precisará de ajustes e diferentes versões para conhecermos completamente suas qualidades.

Nota: A+

Confira o trailer:

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