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A atualidade de Assassinos Por Natureza

Publicado:   setembro 27, 2017   Categoria:Filmes e sériesEscrito por:Renan Almeida

Recentemente, assisti a Assassinos Por Natureza (1994), de Oliver Stone. O filme acompanha um casal de assassinos em massa que viaja pelos Estados Unidos deixando para trás um rastro de sangue. Com o costume de sempre poupar uma das vítimas, para lhes atribuir o crédito pelos assassinatos, Mickey e Mallory (Woody Harrelson e Juliette Lewis, respectivamente), como eles se chamam, fazem questão de serem conhecidos pelos seus crimes.

Ao final do filme, quando subiram os créditos, senti-me estranho, desconfortável, tenso. E era essa, certamente, a intenção dos realizadores. Afinal de contas, como não se sentir desconfortável ao ver dois degenerados cometerem os mais horríveis crimes por pura diversão e ainda saírem impunes disso? É a reação mais automática. De repente, peguei-me lendo sobre o longa com afinco. Foi então que me deparei com a crítica de Roger Ebert. Em seu texto, ele pontua como o filme é uma espécie de alerta sobre a direção para a qual a sociedade norte-americana estava se encaminhando naquele período. Escrevendo na mesma época em que emergiu na mídia o caso OJ Simpson, Ebert comenta como as pessoas pareciam cada vez mais interessadas em crimes e escândalos do que em qualquer outra coisa, como política, artes ou esportes.

Se observarmos a premissa do filme, pode parecer, a princípio, loucura que uma grande quantidade de pessoas passe a idolatrar assassinos em massa. Mas será mesmo? Se bem lembrarmos, o nome artístico de um famoso músico norte-americano não é Marilyn Manson justamente por causa do maníaco (condenado à prisão perpétua) Charles Manson? Serial killers tornaram-se populares, sobretudo, na cultura pop. Características comumente atribuídas a psicopatas, como egoísmo, narcisismo e falta de empatia, estão distribuídas por toda a nossa sociedade e, por vezes, parecem até organizá-la. Psicopata Americano (2000), de Mary Harron (baseado no livro homônimo de Bret Easton Ellis), não é justamente sobre isso? Eles não são os CEOs de multinacionais, profissionais bem sucedidos, funcionários públicos de alto escalão?

Nesse sentido, se o longa de Oliver Stone é uma sátira, está claro que ele apenas seleciona determinados aspectos de uma realidade e os exagera. É assustador pensar que não somente Mickey e Mallory poderiam existir em nossa realidade, mas ainda poderiam contar com uma legião de admiradores. Assassinos Por Natureza não requer um grande esforço interpretativo. Em sua crítica, Ebert chega a pontuar como a abordagem de Stone é livre de quaisquer sutilezas. O filme atribui parte da culpa desse fenômeno (o da obsessão por serial killers) ao jornalismo policial sensacionalista. Esse tipo de jornalismo é representado pela figura de Wayne Gale, interpretado por Robert Downey Jr., que, na frente das câmeras, porta-se como um verdadeiro paladino da justiça, confrontando os criminosos mais perigosos e reprovando veementemente seus atos, mas apenas sai do ar e os agradece pela oportunidade de entrevistá-los. Os muitos Wayne Gales da mídia corporativa estão preocupados, na verdade, somente com a audiência. Olhando para como esses programas policialescos estão organizados, parece mesmo tão absurdo que a emissora continue a exibir as imagens ao público mesmo após a explosão de uma rebelião no presídio? Mais uma vez, a resposta não é agradável.

Programas como “Hard Copy” ou “America’s Most Wanted” o que fazem senão explorar a violência como entretenimento? No Brasil, aliás, a realidade não é muito diferente. Temos por aqui os nossos próprios noticiários sangrentos, muitas vezes exibidos em pleno horário de almoço. Ao nos proporcionar tais reflexões, Assassinos Por Natureza se mostra extremamente atual, mesmo após os mais de vinte anos de seu lançamento. Talvez seja seguro dizer que a nossa situação tenha até mesmo piorado desde então. Se assim não fosse, não veríamos tão recentemente um filme como O Abutre (2014), de Dan Gilroy, com uma atuação impecável de Jake Gyllenhaal e um roteiro que nos deixa apreensivos e perturbados com a nossa própria realidade.

Roger Ebert diz, em seu já mencionado texto, que Assassinos por Natureza é como um tapa na cara da sociedade estadunidense, com o objetivo de acordá-la para o que estava – e ainda está – acontecendo. Considerando que não somos assim tão diferentes dos nossos vizinhos ianques nesse aspecto, podemos sentir o impacto da pancada também. E por mais que em alguns momentos seja de fato necessário, um tapa na cara sempre dói.

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