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Crítica – Feito na América

Publicado:   setembro 14, 2017   Categoria:Criticas , Filmes e séries , OpiniãoEscrito por:Renan Almeida

Após a Revolução Cubana em 1959, a chamada “política de boa vizinha” dos Estados Unidos com relação à América Latina chegou ao fim. A partir de então, as relações interamericanas foram marcadas por uma forte crise, que apenas foi intensificada pela Guerra Fria. Apesar disso, o expansionismo dos EUA remonta ao século anterior, podendo ser dividido, segundo Florival Cáceres, em duas fases. A primeira correspondeu à expansão interna do território, da costa atlântica ao pacífico, antes da guerra civil americana (entre 1861 e 1864). A partir desta, inicia-se a fase que recebe propriamente o nome de “imperialismo”. Convém lembrar, por exemplo, a compra do Alasca, em 1867, a guerra contra a Espanha, em 1898, e a construção do canal do Panamá, um empreendimento inicialmente francês, mas que foi concluído pelos estadunidenses.

Todo este rodeio histórico serve ao objetivo de ilustrar como os Estados Unidos sempre tiveram um inquestionável protagonismo no continente americano. Já é conhecido o apoio da Casa Branca a diferentes regimes autoritários que emergiram na América Latina a partir da década de 1960, inclusive a ditadura civil-militar que perdurou no Brasil entre 1964 e 1985. O que talvez não seja tão claro para a maioria das pessoas é que a interferência dos EUA nos assuntos de países latino-americanos persiste até hoje. Não, não me refiro somente ao fato de Donald Trump ter cogitado recentemente uma ação militar na Venezuela, mas sim ao papel desempenhado por Hilary Clinton no golpe que teve lugar em Honduras no ano de 2009.

Essa discussão nos traz então a “Feito na América”, filme de Doug Liman de 2017 estrelado por Tom Cruise. O longa conta uma parte da história de Barry Seal (Cruise), um piloto de aviação que foi responsável pelo transporte da cocaína do cartel de Medellín para os Estados Unidos, enquanto trabalhava para a CIA na entrega de armamento para grupos paramilitares na Nicarágua. Contrabandeando charutos enquanto piloto comercial, Seal é recrutado por um membro da agência de inteligência americana que atende pelo nome de Schafer (Domhnall Gleeson). Este, ao explicar àquele o trabalho da organização, refere-se a projetos de “construção de nações”. O trabalho do piloto seria simples: fotografar bases de guerrilhas comunistas. O anseio por aventura e a perspectiva de altos ganhos financeiros, contudo, fazem com que o personagem de Tom Cruise se veja envolvido com os traficantes colombianos.

É assim, inclusive, que o filme apresenta as motivações do protagonista para entrar nessa vida tão perigosa. Após receber a proposta de Schafer, Seal é visto respondendo às perguntas de check-list de seu copiloto de forma extremamente automática e desinteressada, o que sugere a monotonia e falta de emoção em sua vida. Este Barry Seal, a propósito, recebe uma representação bem mais generosa que aquela vista em Narcos (2015- ). Na série da Netflix, Seal é visto pela primeira vez deitado nu junto a diversas mulheres (também nuas) numa casa de prostituição. No longa de Liman, por sua vez, é um marido fiel e pai amoroso (embora pouco seja visto interagindo com seus filhos). Essa suavização é significativa, já que o filme converte o piloto em um anti-herói. No ano passado, a filha de Seal entrou com uma ação judicial contra a Universal na tentativa de impedir que o estúdio seguisse tocando o longa.  De acordo com O Globo, ela alegou que “a terceira mulher do pai e os três filhos do casal, seus meio-irmãos, venderam os direitos de reprodução da história do ex-traficante sem o seu consentimento e aprovação de um tribunal”. O processo apresentado também afirmava que o roteiro do filme continha muitas imprecisões factuais. Nessa perspectiva, a decisão de representar Seal como um homem casado uma única vez e pai de três filhos é, no mínimo, curiosa.

Não obstante, o filme recria bem a atmosfera dos anos 1970 e 1980, que já é anunciada na própria logomarca animada da Universal exibida antes dos créditos iniciais, remetendo àquela usada pelo estúdio durante o período. Os objetos de cena contribuem para esse efeito.

A estrutura narrativa de “Feito na América” lembra a de Narcos (2015- ), com uma narração em off que explica detalhadamente os acontecimentos da trama, recorrendo, em muitos momentos, a ilustrações e desenhos, o que deixa o roteiro bastante didático. O problema é que às vezes a exposição é excessiva, chegando ao ponto de repetir informação desnecessária (pois já compreendida). Para justificar a narração de Seal (como a história é baseada em eventos reais, pelo menos uma parte da audiência já sabe o que aconteceu ao piloto), o longa recorre ao artifício de fitas de vídeo por ele gravadas. Ademais, a utilização do humor para contar acontecimentos que envolvem práticas criminosas parece trazer alguma inspiração de O Lobo de Wall Street (2013). Nesse sentido, o filme chega a brincar com a presumida ignorância do espectador americano mediano com relação à localização geográfica da Nicarágua. Um outro momento que me chamou a atenção diz respeito a uma cena em que Barry, claramente demonstrando dificuldade de gerenciar e lavar todo o dinheiro que ganha, aparece lendo um livro sobre Al Capone, como se tentasse aprender sobre o mundo do crime.

Quanto à trilha sonora, a utilização de um remix de Beethoven, incluindo a Quinta Sinfonia e o quarto movimento da Nona (Ode à Alegria), foi o que mais me incomodou. No mais, não há aqui nada muito especial.

Em conclusão, “Feito na América” tem seus problemas, e busquei aqui elencar alguns deles, mas se tem algo em que o filme é bom é em desnudar a hipocrisia dos sucessivos governos dos Estados Unidos (embora se detenha no governo Reagan). É difícil encontrar conflitos pelo mundo contemporâneo que não tenham contado com a participação desse país (ou que não tenham sido provocados direta ou indiretamente por ele). Em seu famoso pronunciamento, no qual aponta como autoridades do governo da Nicarágua se envolveram diretamente no tráfico de drogas, o ex-presidente Reagan disse: “parece que não existe nenhum crime que os sandinistas não cometam”. Ora, não foi o governo dos Estados Unidos que, sem autorização do Congresso Nacional para uma ação militar no país latino-americano, utilizou-se da CIA para fornecer armas e treinamento militar a grupos paramilitares, que inclusive contavam com a participação de crianças e adolescentes? Não foi esse mesmo governo que, com essa operação, permitiu com que o Cartel de Medellín tivesse acesso a esse mesmo armamento? O governo dos EUA, por meio de sua agência de inteligência, cometeu inúmeros crimes. Não é errado afirmar que ele, indiretamente, ajudou a criar uma das mais temidas organizações criminosas do mundo (sim, mais uma vez). Assim, o título do filme é mais do que apropriado. Não deixa de ser curioso ver como tantas situações são justificadas com o dizer “você está servindo o seu país”. Este é, afinal, o modus operandi da “maior nação do mundo”: ajude a criar o problema, proponha a solução; quando tudo der errado, encontre alguém para culpar.

Nota: B-

Confira o trailer:

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