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Crítica – Uma Mulher Fantástica

Publicado:   setembro 6, 2017   Categoria:Criticas , Filmes e séries , OpiniãoEscrito por:Renan Almeida

Não há nada pior do que ter negado o direito de ser aquilo que se é. Ou, melhor dizendo, não há nada pior do que não poder desenvolver-se livre e espontaneamente como indivíduo, ter de se esconder da sociedade. Se dependesse dos autoproclamados “cidadãos de bem”, alguns milhares de indivíduos seriam isolados do contato com as pessoas “normais”. Uma Mulher Fantástica, filme chileno vencedor do prêmio de melhor roteiro na 67ª edição do Festival de Cinema de Berlim, parece entender isso, mostrando como o preconceito se reproduz cotidianamente, estando muitas vezes presente em pequenos gestos e palavras.

Nesse contexto, o longa parte de um conflito relativamente simples: após a morte repentina de seu companheiro, o empresário Orlando Onetto (Francisco Reyes), Marina (Daniela Vega), uma garçonete transexual que sonha em ser cantora, se vê obrigada a lidar com a família do falecido para resolver as questões relativas aos bens que este deixou. Marina já é alvo de constrangimento no momento em que leva Orlando ao hospital, quando um médico pergunta se o seu nome é na verdade um apelido. O preconceito institucional se manifesta também quando um policial, ao interrogá-la, insiste em tratá-la pelo pronome masculino e se recusa a usar seu nome social. Não bastasse isso, ela ainda é impedida pela família de Orlando de comparecer ao velório, o que mostra como sua presença, por si só, é capaz de causar desconforto, como se o simples ato de ela existir fosse uma ofensa àquelas pessoas. A ex-esposa de Orlando (Aline Küppenheim) ainda tenta se justificar (porcamente) alegando que sua filha pequena estará presente, fazendo questão de chamar Marina pelo seu nome de nascimento como forma de atacá-la. O nome Marina, inclusive, é constantemente usado como forma de autoafirmação.

O vermelho é uma cor recorrente na fotografia de Benjamín Echazarreta, utilizado frequentemente para marcar o amor de Orlando e Marina, mas também como forma de indicar a instabilidade emocional desta. O azul também domina o ambiente em algumas cenas, estando presente nas vestimentas de Marina após a morte de seu amado. Um tipo de plano comum no filme é aquele que enquadra a protagonista junto de seu reflexo em alguma superfície espelhada. Espelhos são bastante utilizados no cinema quando um personagem se questiona a respeito de suas intenções, anseios e de sua própria existência. O curioso, aqui, é que em poucos momentos Marina efetivamente encara seu reflexo por vontade própria. Em um momento marcante, ela é confrontada pela própria imagem quando trafega pelas ruas da cidade. É como se ela fosse obrigada a lidar com a imagem que apresenta à sociedade.

A escalação do elenco, por sua vez, se mostra acertadíssima, mas talvez o principal acerto do diretor chileno (nascido na Argentina) Sebastián Lelio seja o de ter escalado para o papel de Marina a atriz e cantora Daniela Vega, dando, assim visibilidade a uma intérprete transexual. A atuação de Vega é primorosa. Podemos ver, por exemplo, como seu rosto treme ao confrontar Bruno (Nicolás Saavedra), o filho de Orlando, pela primeira vez, tendo que explicar a causa dos hematomas encontrados no corpo deste. O diretor também se mostra competente no emprego de metáforas visuais, como no plano em que a protagonista é vista andando na direção oposta ao vento, que a empurra para trás. Apesar de um tanto óbvia, a metáfora não deixa de ser elegante, e ilustra como Marina está “contra o vento”, como este não está ao seu favor.

O filme, contudo, não é perfeito. A aparição frequente do fantasma de Orlando é um tanto exagerada, reforçando uma mensagem que já estava evidente. O fantasma, inclusive, possui até uma função narrativa, levando a protagonista para onde ela gostaria de estar, o que acaba se mostrando um facilitador no roteiro de Lelio e Gonzalo Maza.

Não obstante, a importância de Uma Mulher Fantástica é inegável, lançando luz sobre uma questão que já não pode mais ser desprezada. Além da importância temática, o filme possui uma qualidade técnica indiscutível. Exemplo disso, além dos mencionados acima, pode ser encontrado no uso diegético da música. Em determinado ponto da projeção, a personagem de Daniela Vega ouve no rádio do carro a canção You Make Me Feel Like A Natural Woman, de Aretha Franklin, o que possui um significado narrativo óbvio. A música composta por Matthew Herbert, por outro lado, é boa e bem utilizada pelo diretor.

Por último, há que se destacar o cuidado do roteiro em não transformar os personagens, especialmente a família de Orlando, em seres unidimensionais, já que o irmão deste, Gabo (Luis Gnecco), parece realmente ser sincero quanto ao fato de sentir pela situação a que Marina foi exposta. Se ele é sem jeito ao não saber como cumprimentá-la pela primeira vez, talvez seja menos por preconceito que por pura ignorância. Nicolás Saavedra, por sua vez, confere a seu personagem Bruno uma leve hesitação no momento em que participa de um ato violento contra Marina. Esta, no entanto, em nenhum momento é retratada a partir da ótica de uma “vitimização objetificante”, que converte personagens oprimidos em vítimas passivas da opressão a qual estão submetidos. Uma história dessa natureza poderia facilmente cair nesse erro. Uma Mulher Fantástica, porém, conta com uma protagonista que é agente de sua própria vida. Isso, por si só, já seria um mérito enorme.

Nota: A-

Confira o trailer:

Visualizacões:   8   Comentários:   1   Curtidas: 0

1 Comentário

7 de setembro de 2017
O filme então vai conseguir fugir das críticas enfrentadas ultimamente por filmes como A garota dinamarquesa e Moonlight por trazer um personagem que carrega no próprio ator as mazelas de ser em si como tratada no filme. Parece bastante interessante e pode virar um clássico da temática daqui um tempo. Bom texto man.
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