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Originalidade e intertextualidade: onde acaba a homenagem e começa o plágio?

Publicado:   agosto 10, 2017   Categoria:Filmes e séries , OpiniãoEscrito por:Renan Almeida

A originalidade é uma preocupação comum a qualquer autor em suas criações. Ser original é um objetivo que escritores, cineastas, pintores e músicos perseguem com afinco. É válido, porém, questionar-se: como e de onde surge a originalidade? O que é ser original? Não há uma resposta pronta ou mesmo única para tais perguntas, mas quando se reflete sobre elas uma série de questões importantes parece emergir.

Nesse contexto, muito se tem questionado a originalidade de diferentes autores/artistas, e entre eles, um dos cineastas contemporâneos mais celebrados do mundo: Quentin Tarantino. O diretor de Pulp Fiction (1994), Kill Bill (2003/2004), Bastardos Inglórios (2009) e outros sucessos de crítica é frequentemente acusado de ser pouco original em suas criações. Isso porque, sendo um profundo conhecedor de cinema, Tarantino faz diversas referências e homenagens a filmes clássicos e obscuros de diversos gêneros. Abundam vídeos pela internet reunindo as influências do premiado cineasta.

De fato, Tarantino produziu planos extremamente semelhantes aos de filmes que o inspiraram em diferentes ocasiões. Há quem o acuse mesmo de ser um plagiador. Tal acusação ganha força quando se compara Cães de Aluguel (1992), o primeiro filme de importância em sua carreira, com Cidade em Chamas, um filme chinês de 1987. Ambos são incrivelmente semelhantes sob vários pontos de vista, desde diálogos até o próprio enredo. Contudo, não se busca aqui defender ou acusar Tarantino de qualquer coisa. A polêmica que o envolve é mais útil para uma discussão sobre como diferentes autores se influenciam ao longo do tempo do que para atacá-lo como artista. O processo de criação de algo novo necessariamente envolve juntar referências daquilo que veio antes. A arte, afinal de contas, não se realiza num vácuo.

Caso similar ao dos filmes de Tarantino é o da série Mr. Robot (2015- ). O mais recente acerto do canal pago USA Network já foi agraciado com diversos prêmios desde o seu ano de estreia, tendo inclusive rendido a Rami Malek, sua estrela principal, um Emmy Award de melhor atuação em 2016. A série em questão é repleta de referências a diversos filmes, muitas das quais bastante explícitas. É o caso da máscara adotada pelo grupo hacker da ficção “fsociety”, que remete diretamente à representação de Guy Fawkes na graphic novel V de Vingança, de Alan Moore. Outro caso de referência explícita é o personagem Tyrell Wellick, cujo primeiro nome é quase um anagrama de Tyler (Durden), personagem de Brad Pitt em Clube da Luta (1999). Para deixar ainda mais clara a influência do filme de David Fincher em Mr. Robot, o nono episódio de sua primeira temporada é encerrado com uma versão ao piano de Where’s my mind?, música da banda Pixies que toca ao final de Clube da Luta. Sam Esmail, o criador da série, já chegou a declarar em entrevista que, como nerd de filmes que é, “rouba” de cada filme e série de televisão que já assistiu em sua vida, sem se desculpar. Segundo ele, mesmo assim Mr. Robot consegue criar algo original.

O canal do Youtube Wisecrack fez um vídeo (cuidado, spoilers da série) listando todas as principais inspirações de Mr. Robot, que vão desde Clube da Luta, passando por Psicopata Americano (2000), até chegar a Matrix (1999), Taxi Driver (1976) e a filmografia de Stanley Kubrick. Outro vídeo (assista no player abaixo) lista outras vinte referências, incluindo Um Sonho de Liberdade (1994), De Volta para o Futuro (1985), Um Estranho no Ninho (1976), entre outras.

Cuidado: spoilers da primeira e segunda temporada

Pode parecer, a princípio, que Esmail está realmente – como ele mesmo diz – deliberadamente roubando ideias de obras consagradas, mas o fato de ele não fazer a menor questão de esconder suas influências traz um pouco mais de complexidade à discussão. Ele não rouba ideias que deram certo em outras obras e simplesmente as reproduz na sua. Até porque muitas dessas ideias têm origem em filmes bastante populares. Tampouco me parece que o objetivo é simplesmente ostentar um conhecimento profundo sobre cinema. As homenagens e referências têm basicamente duas funções: mostrar à audiência quais obras e conjuntos de ideias influenciaram determinado produto e reforçar alguma mensagem por meio da intertextualidade. É o que acontece em Mr. Robot.

Para ser mais claro, recorro a um ótimo exemplo de intertextualidade na filmografia de Martin Scorsese. Em Os Bons Companheiros (1990), há um plano muito famoso no qual o personagem de Joe Persci aparece atirando contra a tela. Como mostrou o Primeiro Plano (além de reunir diversas influências do aclamado cineasta para esse filme), Scorsese fez uma referência ao filme de 1903 O Grande Roubo do Trem. Este curta de Edwin S. Porter é sobre um bando de criminosos que realiza um grande roubo, mas vê seus planos darem errado no final, o que, segundo Scorsese, é basicamente o que ocorre em Os Bons Companheiros.

          

Bem, todo autor possui referências, isto é, outros autores/artistas que o influenciaram. Há várias fontes de inspiração, inclusive a própria vida ou a vida de terceiros. Exemplos disso podem ser encontrados em abundância na literatura. Tolstói, em Anna Kariênina (1877), baseou-se em um caso real de uma vizinha sua que, após um episódio de infidelidade conjugal em sua família, teve um destino trágico. Além disso, o mestre russo sempre escreveu muito sob a luz das próprias experiências, como na novela O diabo, publicada postumamente em 1916. Também em Dostoiévski, para mencionar outro russo, pode-se observar a influência da vida sobre a arte, já que sua experiência na Sibéria – onde conheceu um sujeito acusado de um crime gravíssimo – foi fundamental para a escrita de Os Irmãos Karamazov (1880). Já em terras nacionais, pode-se falar de Aluísio Azevedo, que se baseou em um caso real de um crime motivado por “vingança da honra” ocorrido no Rio de Janeiro para escrever Casa de Pensão (1890).

Convém citar, por último, o grande expoente do realismo literário no Brasil, Machado de Assis, muito influenciado por Shakespeare e pela filosofia de Arthur Schopenhauer. Dom Casmurro (1899), a propósito, possui uma forte intertextualidade com Otelo, o Mouro de Veneza (aprox. 1603), sendo considerado por muitos quase uma releitura do clássico do Bardo de Avon.

Dessa forma, é possível perceber a complexidade que envolve a discussão sobre originalidade. A intenção aqui foi basicamente a de mostrar como autores muitas vezes se apropriam de ideias específicas (não necessariamente originais) para construir algo novo (e, quem sabe, original). Como visto, ideias “emprestadas” de outras obras podem servir para reforçar alguma mensagem ou subtexto, pela similaridade. O plágio, a meu ver, acontece justamente quando se busca esconder essas influências e inspirações, como num texto acadêmico em que o autor se utiliza de ideias de terceiros sem referenciá-las de maneira apropriada. Tal comparação, potencialmente problemática, ao menos na mente do autor deste texto faz sentido. De todo modo, a discussão nunca se encerra no texto e fica livre para continuar na seção de comentários.

“Com insônia, nada é real. Tudo parece distante. É tudo uma cópia, de uma cópia, de uma cópia.” – Clube da Luta, 1999.

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1 Comentário

11 de agosto de 2017
Ótimo texto!!
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