Papo Torto
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Crítica – Os meninos que enganavam nazistas

Papo Torto

A Segunda Guerra Mundial é repleta de histórias impressionantes. E este é o caso daquela contada em Os meninos que enganavam nazistas. Não fosse ela baseada em uma história real, poderia ser até difícil de crer. Ao menos para quem vive em contextos tão alheios ao das guerras e perseguições. Para os judeus, infelizmente, o nomadismo imposto pela intolerância foi muitas vezes encarado por esse povo como uma condição natural. No romance autobiográfico de Joseph Joffo, por exemplo, o pai deste, ao comunicar-lhe que ele e seu irmão mais velho Maurice teriam de partir, sozinhos, para uma região distante, não vê mais do que a repetição de sua própria história, assim como da de muitos outros judeus.

Este lançamento de 2017, que adapta para o cinema a obra acima mencionada, não é a primeira versão cinematográfica da história da família Joffo. Um longa de 1975, dirigido por Jacques Doillon, já havia mostrado esses acontecimentos. De todo modo, o filme acompanha a trajetória de Joseph e Maurice, dois jovens irmãos judeus que, após a ocupação de Paris pela Alemanha nazista, se veem obrigados a fugir para a “zona livre”, encontrando pelo caminho diversos obstáculos, os quais precisam contornar com coragem para reencontrar sua família.

Nesse contexto, os irmãos passam juntos por diferentes apuros, tendo a sorte de encontrarem pelo caminho pessoas dispostas a ajudá-los. Durante todo o percurso, fugindo dos nazistas, os jovens precisam esconder quem eles de fato são. Sempre ensinados a terem orgulho de sua origem judaica, eles passam a viver em uma conjuntura na qual é perigoso demais ter orgulho, como afirma o próprio pai em determinado momento da projeção. E, por mais que sua infância lhes seja tomada e negada, eles não deixam de efetivamente ser crianças, e a velha bolinha de gude que Joseph carrega o tempo todo parece ser um lembrete disso. É oportuno mencionar que o título original do longa (e também, é claro, do livro no qual se baseia), em francês, é Un sac de billes (“um saco de bolas de gude”, em tradução livre).

Desse modo, vemos o protagonista e seu irmão encararem as dificuldades da guerra com um olhar de inocência e descoberta, e os jovens atores Dorian Le Clech e Batyste Fleurial Palmieri, que interpretam os irmãos Joseph e Maurice, respectivamente, impressionam com a intensidade de sua atuação. Também é louvável o trabalho de Patrick Bruel, que, com a ajuda do roteiro, compõe um Roman Joffo mais afetuoso que o da obra original, mas transmitindo o mesmo tipo de sabedoria deste. O roteiro, além disso, merece aplausos por investir no humor em um ou outro momento, removendo o peso excessivo que um drama dessa natureza poderia trazer consigo. A trilha de Armand Amar, embora não apresente nada muito especial, é eficiente em evocar a desolação da guerra e o desconsolo de ser separado da própria família. A montagem, por sua vez, é pouco original ao ilustrar a trajetória dos meninos por uma sobreposição entre a imagem destes caminhando, a natureza e a estrada que encontram pela frente e a representação geográfica de seu deslocamento.

Nunca é demais lembrar, também, que apesar de baseado em uma história real, o livro de Joffo foi escrito cerca de 30 anos após os acontecimentos por ele narrados. Estes acontecimentos, com efeito, podem não ser uma representação precisa do que efetivamente ocorreu. Além disso, o próprio longa é uma adaptação.

No entanto, Os meninos que enganavam nazistas é um filme tocante, que conta uma incrível história de resiliência e sobrevivência e nos lembra do horror da guerra e do holocausto, mostrando que, longe de ser um sentimento exclusivo dos nazistas, o antissemitismo era difundido pela Europa. Assim, o drama retrata também os colaboradores franceses do regime de Hitler, que com suas milícias caçavam judeus e membros da resistência, sob a alegação de que o verdadeiro inimigo da França era a Inglaterra (devido à rivalidade histórica existente entre os dois países), não a Alemanha.

Em suma, este filme do diretor canadense Christian Duguay, já habituado a trabalhar com a temática da Segunda Guerra Mundial, pode ser descrito como uma boa atualização de uma história bastante aclamada em seu país de origem.

Nota: B+

Obs.: O filme estreia no Brasil no dia 3 de agosto de 2017.

Confira o trailer:

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