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Silêncio — Crítica

Publicado:   março 18, 2017   Categoria:Sem categoriaEscrito por:Rômulo Costa

Padre António Vieira, sacerdote da Companhia de Jesus no século XVII, afirmou certa vez que “para falar ao vento bastam palavras, para falar ao coração são necessárias obras”. Para arrebanhar fiéis, não bastava convencer pela simples argumentação, e isto os jesuítas devem ter descoberto cedo. Assim, a instituição encontrava formas variadas de desempenhar suas atividades, a depender do país em que se encontravam. Para homens do século dezessete, o encontro com culturas distantes facilmente tomava a forma de um choque — que poderia desembocar nos desfechos mais inesperados. A adaptação, nesse contexto, era imperativa. No filme, dois sacerdotes vão até o Japão — em busca de seu mentor e para espalhar o catolicismo na região.

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O assunto do colonialismo europeu, época em que a história está situada, passa ao largo da narrativa, sobretudo no seu aspecto opressor. Em verdade, o filme de Scorsese é todo centrado na dimensão espiritual, poupando críticas sociais ou políticas em detrimento desse aspecto. Pode incomodar, ao espectador, o fato de os japoneses, em geral, serem apresentados como excessivamente ariscos, ignorantes e violentos, em contraste aos portugueses “civilizados”. Esse aspecto pode ser explicado ao retornarmos ao livro que deu origem à obra cinematográfica: o autor, Shusako Endo, foi católico no Japão da primeira metade do século vinte, tendo sofrido com a discriminação religiosa. Ora, nessas circunstâncias, Endo não precisava ser condescendente com os compatriotas ao escrever seu livro — e a exaltação dos missionários cristãos é, assim, natural.

Como é comum às obras cristãs, podemos ver, até certo ponto, passagens evangélicas se repetirem na narrativa: podemos, por exemplo, estabelecer correlações entre os sacerdotes e alguns dos personagens bíblicos, como Pedro e Judas. Na direção, o Scorsese em fim de carreira parece conduzir com liberdade o seu ofício, pouco preocupado com fórmulas banais de novela barata para cativar o público. No entanto, temos a impressão de que a obra precisaria de mais horas para conseguir dizer tudo que tinha para ser dito (esse efeito é resultado do aspecto resumitivo da parte final). A fotografia é, para deixar em uma palavra, impactante. O diretor de fotografia, Rodrigo Prieto, tem no currículo filmes como “O segredo de Brokeback Mountain” e “O lobo de Wall Street”. O poder da imagem, aliado à voz e às atitudes dos personagens, promovem uma experiência catártica que dispensa uma trilha sonora demasiadamente sofisticada — o silêncio, entendemos, é mais que um título, é um convite.

Nota: A+ 😀

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