Papo Torto
Pular

Quem disse que bala trocada não dói?

Publicado:   janeiro 31, 2017   Categoria:ComportamentoEscrito por:Dick Farney

Todo bom brasileiro e quiçá todo habitante do planeta, independente de credo, raça e gênero, conhece o famigerado ditado “bala trocada não dói”, mas será mesmo que não dói?

Andei pensando nisso por alguns dias e do nada capturei uma cerveja na geladeira, sentei-me e pus-me a escrever sobre essa versão raquítica e simplista do famoso (e desconhecido ao mesmo tempo) Código de Hamurábi que tem como principal verso o seguinte:

 “Olho por olho, dente por dente.”

Pessoas mais sensíveis e de gerações mais preocupadas com o próximo disseram que se continuarmos assim só iremos parar quando todos estiverem cegos e banguelas. É cômico mas é sério. A sociedade vai cada vez mais encurtando sua já míope e debilitada visão a um campo áspero de tratamento uns para com os outros. Estamos desacreditados no amor e no respeito pelo próximo (eu ia dizer respeito pelo sexo oposto mas isso ia soar hétero demais até pra mim) e até nossa cultura foi afetada por esse comportamento simplório. Versamos e cantamos em coro “senta na minha pipoca e “meu pai te ama” (versão educada e adaptada pra conseguir visibilidade nas rádios, já que palavrão no rádio não pode).

Ah, deixa de ser implicante seu roqueiro de merda! É só uma música!” – curiosamente isso é um fato: chamam isso de música. Mas até onde isso pode realmente afetar o seu comportamento? E o que é mais curioso é que se durante a festa alguém vir a mocinha sentando na pipoca de algum rapaz ou dando uns bons beijos no pai de alguém, vão se sentir no direito de fazer aquele bom e velho burburinho. Isso tudo sendo citado e não posso esquecer do toma lá, dá cá propagado aos quatro ventos pela nova música popular brasileira: o sertanejo. Dá pra escrever um livro com as coisas que essa turma faria pra poder ser vingar do atual ou ex.

Mas esse artigo não é pra falar de “música” ou de pipoca ou do pai de alguém. A intenção e tentar chamar a atenção das pessoas mais jovens, a intitulada geração do desapego, que isso é uma babaquice sem precedentes. Ótimo que você desapegue de gente que põe pra baixo, que te atrasa, que te atrapalha ou que te cause qualquer tipo de prejuízo. Tem que desapegar mesmo de gente ruim mas essa turma está desapegando de tudo, sem filtro, sem limite, sem medida.

Acham bacana trocar farpas por dias a fio. Visualizar mensagens e não responder por pirraça. Desconversar sobre todos os assuntos. E o que é mais impressionante: eles fazem isso com as pessoas que eles gostam! “Se eu não tô doido, alguém está!” – dizia meu amigo, Lamir Sidon.

Gastam força tentando não sentir, não demonstrar, não falar. Se empenham enquanto roem as unhas para simplesmente não ligar ou não responder. Vasculham históricos de conversas para poder jogar na cara um do outro. Literalmente é uma bala trocada atrás da outra. É uma guerra invisível. Onde esse povo foi parar com cabeça? Não estou dizendo que as pessoas tem obrigação de estarem disponíveis 24 horas do dia aguardando sua mensagem mas sim, eu estou dizendo que é BURRICE assumida você não tratar como obrigação da sua parte dizer o que sente. Seja bom ou seja ruim, ponha para fora. Alguns sentimentos formam feito para serem colocado pra fora e não represados.

Ainda carrego um estigma muito grande por ter silenciado muita coisa por muito tempo. Perdi amigos, pessoas que amei, grandes oportunidades por simplesmente me manter em calado quando deveria ter dito o que sentia. E é engraçado que é na beira do abismo que resolvemos dizer tudo de uma vez, irromper como uma represa que explodiu, quando já é tarde demais.

Não duvide: sempre tem alguém escorrendo pelos seus dedos pelo fato dessa pessoa não saber o quanto é importante pra você, pois pare de ser trouxa e mande uma uáts, um telegram, um e-mail, um sms (se você tem 20 e poucos nem deve saber o que é isso, haha!), faz uma visita…. pega o telefone e liga.

Não seja educado por esse povo do desapego. Desapegue do que é ruim e agarre com unhas e dentes o que te faz bem.

Ainda dá tempo de dizer qualquer coisa!


escrito ao som de Radiohead

Visualizacões:   57   Comentários:   2   Curtidas: 0

2 Comentários

1 de fevereiro de 2017
Gostei e concordo plenamente. Hoje em dia parece que é ridículo demonstrar afeto pelas pessoas. Muita gente acha que demonstrando esse desapego elas são auto-resolvidas e fodonas. Que triste!
1 de fevereiro de 2017
constroem seus próprios castelo de areia, todo dia. Por que todo dia o vento o sopra
Comentar (pelo Facebook)

Deixe uma resposta

A password will be emailed to you.