Papo Torto
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Amostra Grátis #1 – Mas como pode?

Publicado:   janeiro 23, 2017   Categoria:Música , OpiniãoEscrito por:Jota1

Detesto quando preciso responder a seguinte pergunta: “Você curte Sertanejo?”

Geralmente quem pergunta já sacou na minha cara que a resposta é não. Mas ela pergunta por estranhamento. Por que parece IMPOSSÍVEL alguém não gostar disso.

“Hmm.. Não.” – Respondo, quase que confessando um crime.

Olhar de sentença. Quem não fala nada, deixa no ar um clima estranho. Tipo mal cheiro no elevador.

Quem responde, ignorando o clima esquisito que fica, vai mais a fundo:

Mas como pode você NÃO GOSTAR de Sertanejo?

Toca em TODOS os lugares, a TODO o tempo…

É o ritmo DA MODA hoje no país. TODO MUNDO gosta.

Aí me vejo obrigado a explicar – ou justificar – o simples por que de não gostar desse jeito hoje farmacêutico de fazer música. Letras geradas a partir de bordões de internet, ou de amores impossíveis e torturantes. De um padrão sanfona-violão que é repetitivo e chato. De “artistas” desinteressantes, que não trazem nada de novo. Ritmo fácil, vem e vai. Foi assim com o pagode nos anos 90. Foi assim até com o Rock. Que hoje tem lá seus motivos de piada.

É claro que a minha árvore genealógica musical tem sua importância. Acabo tomando cuidado para que o fator de herança emocional não sobreponha a qualidade – isso quando vou indicar algum artista ou banda para alguém. Fora isso é foda-se. No meu Spotify eu vou de Tom Jobim, Marisa Monte a Snoop Dogg e Metallica.

Cresci ouvindo os CDs da Legião Urbana da minha irmã mais velha. Sei quase todas as músicas de cor – menos do disco “A Tempestade” por que sempre foi um disco pesado e muito triste lá pra casa. Minha irmã chorou MUITO quando o Renato Russo morreu e isso me marcou de um jeito muito forte. Toda a turma do rock nacional oitentista da época veio junto. Meu irmão ouvia Rap Nacional. Álibi, Cirurgia Moral, Câmbio Negro, GOG eram obrigatórios nas fitas K7 lá de casa. lembro-me de poucas coisas da minha infância como de quando fui sair com o meu padrinho e “The Boy With the Thorn in His Side” dos Smiths começou a tocar no som do carro. Essas coisas você leva pra sempre, não tem jeito.

Aí vinha minha mãe. Quando não ouvia o Robertão – com seu jeito quase místico e cósmico de ganhar os ouvidos femininos, mesmo que a sua imagem na TV soe desgastada, eu sempre imaginei o quão foda era esse homem na década de 60 e 70. Minha mãe ligava o som de casa e me transportava para o mundo com músicas que não eram comuns nas rádios e em lugar nenhum. Tim Maia, Gonzaguinha, Elton John, John Lennon, Carpenters, Queen, Rita Lee… Até Roupa Nova tinha uma áurea foda. Era um oceano de ritmos e sons com letras instigantes e que pareciam conversar comigo. Me fazer questionar, entender, ir além de tudo aquilo. Gonzaguinha até hoje me causa um efeito que não sei explicar direito. Foi minha mãe que me apresentou Tears for Fears e R.E.M porra!!!!

O texto já encaminhou para um lado que eu não queria explorar, mas sei lá. Deve ser saudade da minha mãe, que sempre bate. Enfim, só pra fechar mesmo, uma música que ela adorava e sempre pedia pra eu baixar quando o Homem-Aranha 2 passava na TV. “Eu não lembro o nome dela filho, mas eu sei que é do B.J Thomas”.

Obrigado por nunca me fazer seguir o senso comum mãe. E obrigado por toda a riqueza musical também.

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5 Comentários

23 de janeiro de 2017
árvore genealógica musical. Nunca pensei em atribuir meus gostos a esse fator. Faz todo sentido. "Olhar de sentença. Quem não fala nada, deixa no ar um clima estranho. Tipo mal cheiro no elevador." sei exatamente o que é isso
23 de janeiro de 2017
É ruim né mano?! kkkkkkk passo por isso muuuitas vezes. a árvore genealógica musical é demais. Até pra músicas que não gostamos mas levamos no coração. kkkk
Jessica Barbosa
23 de janeiro de 2017
"Eu presto muita ateção no que meu irmão ouve". Também foi assim comigo. Ótimo texto!
23 de janeiro de 2017
Obrigado e que delícia essa citação de Adriana Calcanhoto! *-*
[…] Clique aqui e confira o texto, recomendo. […]
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