Papo Torto
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A fabulosa arte de fazer nada quando se pode fazer tudo

Publicado:   novembro 22, 2016   Categoria:Reto no TortoEscrito por:Quirino

“ – Carlos seu escroto, você não deveria ter feito isso anteontem?

   – Caráio Jão, esqueci completamente dessa porra, vou fazer já!”

 

Certa vez ouvi algo do tipo: “Pra que fazer amanhã algo que você pode fazer depois de amanhã?”. O filhadaputa estava errado, bem errado mesmo, mas no fundo estava certo. O tal do “fazer depois” é tão comum e tão enraizado no ser humano que as vezes a gente nem identifica porque internamente a nossa justificativa tá relacionada a prioridades. Bem lembrado, cê viu que a Fátima Bernardes tava dizendo que é melhor… não, peraí! Foco!

É capaz até que você apenas dê uma “passada rápida de olho” no texto todo porque você deveria estar fazendo outra coisa e não lendo isso aqui.

A danada da procrastinação tá em todo canto. Meu caso por exemplo, era pra (prazerosamente) ter escrito no papo há pelo menos 3 semanas, mas fui fazendo uma coisinha aqui, outra acolá e hoje que peguei pra fazer o que pensei por dias, nem sei se vou conseguir terminar de escrever todo o texto, peguei firme agora.

aaah, deixa pra depois

Quantas vezes você sentou a bunda em frente ao computador pra fazer algo e não fez? Quantas vezes você teve que fazer algo, pegou o smartphone e horas depois nem lembrava mais o que era pra fazer e só parou porque suas vidas acabaram no candy crush ou qualquer outro jogo de combinar cores e frutas?

É sempre assim! O sujeito começa a fazer algo, de repente lê uma tuítada ali, vai descendo a timeline da sua rede social sem a menor pretensão, daí vê outro vídeo lá e no final das contas tá perguntando pro google algo do tipo “espirrar muito faz mal?” ou “porque sonhamos?”.

A pessoa poderia estar fazendo qualquer coisa. Poderia estar estudando algo, lendo algum livro bacana ou frustrante, executando algum afazer de casa, cuidando dos cachorros, buscando a cura do câncer ou simplesmente buscando ajuda pra ser menos irônico. Mas não. Melhor deixar para depois enquanto termina a partida de clash royalle. Aliás, espera um pouco aí que vou ver o que acabaram de escrever no grupo da família, afinal o whatsapp não para.

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Há quem diga que o problema todo é falta de foco. Prefiro pensar que é culpa do dinamismo. Hoje em dia (e me sinto velho falando assim) tudo é muito rápido, tudo é muito curto, tudo é pra ontem e no final fica tudo pra depois de amanhã mesmo. Antes eram vídeos de horas, passaram a memes de minutos e voltamos a era dos GIFs de 3 segundos que fazem o mesmo papel de entreter.

“ – Ah cabeção, o povo tem preguiça mesmo!”

Não é só preguiça não. Aliás, isso nem é um problema, não pra mim. O problema é que nesse intervalo, o dinamismo das coisas acaba fodendo com tudo, e coisas muito boas que poderiam ser feitas acabam indo diretamente pro limbo.

Pensemos assim: Carlos (o sujeito lá de cima) poderia ser um exímio entendedor de um assunto qualquer (política, futebol, religião, alinhamento dos planetas, qualquer coisa mesmo), tinha que dar um jeito numa foto pro seu amigo Jão, afinal Carlos é um cara desenrolado nesses negócios de montagem. Ele prometeu a foto da Vózinha do Jão bem bonita, do tipo dente na corôa, óculos sem cordinha e mudar aquele fundo azul porque a parede nem existe mais. Então ligou seu computador e começou. Depois de um minuto e vinte e três segundos ele abriu o facebook e viu a notícia “Pessoas inteligentes dormem cinco vezes mais que o normal”. Daí ele vai lá, compartilha a publicação e ainda coloca uma legenda “Mariazinha, tá vendo aqui, sou um gênio!”. Já era. Fodeu. Horas ou dias depois talvez ele lembre que tinha algo pra fazer. Talvez.

No final das contas, um estudo do sensacionalista virou verdade, Mariazinha respondeu com uma carinha feliz e nem leu. Até aí tá tudo bem, ninguém se fodeu. A não ser Jão que não tem ainda a foto da vózinha dele bem arrumadinha.

Esse caso foi só o Carlos dizendo que dormir é sinônimo de inteligência, mas existem N variações no caminho. Poderia ser o Zé que tinha que fazer uma entrega. Poderia ser a Rita que tinha que levar um punhado de miudezas pra alguém. Poderia ser até o Quirino que tinha que escrever, mas ficou rolando a timeline vendo dezenas de coisas rápidas que depois de amanhã ele nem vai se lembrar mais.

bombeiro

E se perguntarem pro Carlos, pro Zé, pra Rita, pro Quirino o que estavam fazendo? O negócio foi tão rápido que é capaz de dizerem “Nada. Não fiz nada.”

E não fizeram mesmo.

Eu poderia ser um excelente escritor. Poderia ser um músico foda tocando um violoncelo por aí. Poderia estar lendo os dois livros curtos do Solano. Poderia até estar terminando a quarta temporada de Game of Thrones ou matando uma HQ.

Mas deixa a porra toda pra depois.

Amanhã (quem sabe) eu consigo terminar tudo aquilo que comecei e nunca terminei.

Ou melhor, depois de amanhã.

Aliás. O que eu estava falando mesmo?

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3 Comentários

Ítalo Melo Goulart
22 de novembro de 2016
Excelente mano! Me identifiquei pra caralho com esse texto, infelizmente Seja bem-vindo.
25 de novembro de 2016
Genial, cabeção! Simples e objetivo. Entrou com o pé na porta, parabéns!
25 de novembro de 2016
Não sei se deveria ter gostado desse texto. kkkkkkkkkk Gostei.
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