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Crítica — Kubo e as cordas mágicas

Publicado:   outubro 9, 2016   Categoria:Anime/Desenho Animado , Criticas , Filmes e séries , OpiniãoEscrito por:Rômulo Costa

Kubo, personagem que dá nome ao filme, é um garoto que vive com a mãe em uma pequena vila no Japão e diariamente vai até o centro da cidade onde conta histórias, utilizando origamis e música, que fascinam os moradores locais. A segunda parte do título (“e as cordas mágias” ou, na versão em inglês, “and the Two Strings”) faz referência ao shamisen, instrumento japonês de cordas similar a um banjo, que está sempre com o personagem. O shamisen possui três cordas, assim a audiência consciente do título em inglês tem algo a observar durante o filme.

Dirigido por Travis Knight (sua estreia como diretor), muitos nomes famosos compõem o elenco de dubladores (na língua original): Art Parkinson, Charlize Theron, Matthew McConaughey, Ralph Fiennes, Rooney Mara e George Takei. A história original foi desenvolvida por Marc Haimes com Shannon Tindle, o roteiro ficou por conta de Chris Butler e o próprio Haimes. A história foi baseada, segundo Shannon Tindle, “no relacionamento da minha esposa com sua mãe doente. Eu quis contar a história delas pelo ponto de vista de um conto folclórico fantástico inspirado no Japão. O forte aspecto pessoal permitiu que a história fosse um épico de fantasia com um núcleo emocional profundo”.

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“Kubo e as cordas mágicas” é uma animação feita em stop-motion, isso já é algo que impressiona e admira: afinal, estamos diante de um épico, de uma aventura e fantasia, que exige maior escala para dar conta das paisagens, dos cenários, das mudanças. Quanto a isso, duas informações ilustram bem o desafio: a produção do filme confeccionou o menor boneco de stop-motion de todos os tempos e também o maior já feito, um esqueleto de quase cinco metros.

A influência de Akira Kurosawa é importante e clara no enredo e nas demais dimensões do filme: elementos presentes nos filmes do cineasta japonês, como o ideal heróico, o indivíduo contra um sistema, o confronto com a tradição, o caráter épico, são encontrados também nesta animação. Além disso, a aparência do pai de Kubo foi inspirada em Toshiro Mifune, um dos atores de “Os Sete Samurais” (obra de 1954, de Kurosawa). A narrativa é surpreendente em vários sentidos, não apenas no que proporciona de original, mas no uso inteligente de clichês — neste filme não é tão simples deduzir o que vem a seguir quanto em outras animações.

Para além da ação e aventura, que certamente são centrais em uma obra do gênero e com o seu público alvo, ela não se resume a isso: é também um conto de autodescoberta (no decorrer do filme, o garoto descobre o tempo todo mais sobre a própria história) e há um drama familiar: a questão da família como núcleo afetivo perpassado por diferenças e diversidade pode ser notada no filme, por exemplo.

É famosa a frase de Jorge Luís Borges, “somos nossa memória, somos esse quimérico museu de formas inconstantes”. Isso parece ser uma verdade fundamental no universo do filme, especialmente quando lembramos dos minutos finais, mas também quando se tem em conta que a todo momento os personagens relatam acontecimentos do passado que condicionam os eventos do presente.

A trilha sonora original foi composta por Dario Marianelli, já detendor de um Oscar, e é um dos pontos fortes do filme. Quando o filme acaba e aparecem os créditos, podemos ouvir uma versão de “While my Guitar gently Weeps” dos Beatles. Como tudo, não foi uma escolha ao acaso: a música nos remete a relação da personagem com o shamisen e a letra pode ser perfeitamente associada a vários momentos da animação.

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