Papo Torto
Pular

Dissecando Álbuns: Fugees – The Score (1996). O álbum que mudou o curso do Rap para sempre.

Publicado:   setembro 21, 2016   Categoria:Música , Old But GoldEscrito por:Jota1

Quando eu perguntei aos fãs do site no Facebook qual dos álbuns eles queriam ver dissecados, entre “Americana” do the Offspring, “Preço Curto, Prazo Longo” do Charlie Brown Jr, “Hybrid Theory” do Linkin Park ou “The Score” do Fugees, este último foi escolhido quase por unanimidade. Sem muita surpresa, até por que esse clássico se destacou com ideias positivas e um puxão de orelha nos mcs num ano em que o gangsta rap dominava as rádios. É um disco essencial para o hip-hop como um todo, sempre atual. Além de ter nos apresentado a maior mc de todos os tempos: Lauryn Hill.

the-fugees-650-430

pndnmkkO álbum foi lançado em fevereiro de 1996. Num ano em que também foram lançados “Beats, Rhymes and Life” do A Tribe Called Quest, “Hell on Earth” do Mobb Deep, “All Eyez on Me” do Tupac, “Reasonable Doubt” do Jay-Z, “Evil Empire” do Rage Against the Machine, “Endtroducing…” do Dj Shadow e “It Was Written” do Nas (Este que inclusive tem a música “If I Ruled the World” com a Lauryn Hill, um sucesso) Além de The Roots, Xzibit, Outkast com o elogiadíssimo “ATLiens”, entre tantos outros. O Rap estava entre o experimentalismo, com aquela ideia mais sensata, e o gangsta rap que tomou de conta das rádios com personagens como Puff Daddy, Dr. Dre e a treta East Coast vs West Coast, que levou Tupac e Notorious Big. Sem dúvida, o ano mais importante do Rap Mundial.

Esse cenário é presente em “The Score”. Além de rimarem sobre um futuro mais tranquilo para todos, sobre politicas sociais, racismo, tudo com uma produção primorosa de Wyclef Jean, com seu violão presente em quase todas as faixas, seu primo Jerry “Wonda” Duplessis – o álbum foi gravado na casa do tio de Wyclef. Um estúdio chamado “Booga Basement” em Nova Jersey – e Saleem Remi (braço direito de Nas e também trabalhou com Amy Winehouse), Além de Diamond D, John Forté e Shawn King. Estes mais presentes nas faixas mais “Rap” do disco, onde os Mcs da época tiveram que engolir versos afiados de Lauryn Hill e Pras Michael. Tudo com sagacidade, sutileza e em cima de samplers inesperados. De Enya e Delfonics. De Modern Jazz Quintet a Eric B. & Rakim. No conjunto, um álbum de produção simples, mas não pobre. Complexo, mas não complicado.

Todas as faixas se encontram em “skits” fazendo parecer que o álbum foi gravado numa tomada só. Claro que não, mas esse recurso é muito bacana e foi usado mais tarde (até hoje) por Eminem. Skits são faixas curtas que vão intercalando as faixas ou servindo de apresentação da faixa seguinte. Em “The Score” os skits foram usados de forma como se as músicas fossem fluindo de forma natural e tem um efeito devastador e sensacional precedendo faixas como “Ready or Not”, “Cowboys” e “Killing my Softly”.

O Primeiro álbum do trio, “Blunted on Reality” de 94 não teve o alcance esperado. Em “The Score”, multiplatinado até outubro de 97 e topo da Billboard 200 e top of R&B/Hip-Hop Albuns, o trio pareceu encontrar a fórmula entre alcançar um sucesso mainstream com músicas de cunho social, com uma produção primorosa e raps violentos pra cima dos cenário da época. O Rap estava imerso em uma atmosfera gangsta que fazia com que a mídia e as pessoas o ligassem automaticamente a violência. “The Score” foi a resposta a e mudança de tudo isso. Sem exagero, podemos imaginar que nomes como Pharrel Williams, Beyoncé, Nicki Minaj e tantos outros não existiriam se não fosse por “The Score“.

gif-fugeees

Dissecando o álbum.

Em “Red Intro” Uma bateria lenta e um piano sampleado do Dj Red Alert dão gravidade a versos de Ras Baraka rimando sobre a cena local. Uma provocação e carta de “boas vindas” aos mcs metidos a gangsters e faz trocadilho com quase todas as faixas do álbum, de forma rimada e abrindo caminho para o sampler de “Twilight Time” em “How Many Mics” onde Wyclef, Pras e Hill perguntam “quantos microfones você rasga diariamente?”. Hill mais ácida, já alfineta os mcs que rimam sobre “todas as razões erradas” destacando a forma como Mcs retratam mais o “lado negro” das ruas. Rimas referenciais e cheias de referências. Uma bela faixa de abertura, que soa quase improvisada.

Então vem a música preferida do presidente Barack Obama. Preparado ou não, o sampler de Enya (Não permitido, mas depois perdoado) ecoa nos nossos ouvidos e me teletransporta para quando eu tinha 16 anos e ouvi “Ready Or Not” pela primeira vez. Eu ouvi vendo o clipe, dando maior impacto. Wyclef começa com um verso sólido, mas estava clara a intenção da música: Lauryn Hill. Ela passeia pela música com versos intercalados, um flow impecável, uma voz única. Até o refrão que brinca com “Ready or Not, Here i Come (Can´t Hide From Love)” do Delfonics. Uma música perfeita, atemporal, que os Mcs da época deveriam ter ouvido melhor, principalmente seu principal e matador verso: “Então quando você imitar Al Capone, eu serei Nina Simone, defecando no seu microfone”. Clássica! Realmente não há como correr numa faixa dessas.

Em “Zealots” a gente se permite respirar um pouco com um sampler de The Temptations dando uma leveza a faixa, em cima de uma bateria firme, que permite que o trio possa rimar em cima intercalando entre versos cantados. A química entre Hill e Wyclef é evidente. A faixa termina com um skit preparando terreno para a crítica a violência política e policial em The Beast. Uma faixa que também critica fortemente o racismo no cenário atual. Numa faixa direta, sem nenhum sampler tomando de conta da faixa. Beat e rima, natural e sensacional. O beat termina com um famoso esquete do “restaurante chinês” que, dependendo da forma como você é facilmente ofendido, ou entende como uma brincadeira inofensiva ou entendeu errado. Como muitas vezes o racismo se manifesta.

Outro hit do álbum, “Fu-Gee-La” e com a “cara” de Salaam Remi, este que disse que a música representa mais ou menos o modelo de como “The Score” foi baseado. Lauryn Hill toma o “Ooo l ala la” de Teena Marie, de 1988 e o toma pra sí. Wyclef e Pras filosofam em cima do beat. Um Clássico! “Family Business” trás uma guitarra espanhola e as rimas de Omega e John Forté para meditar sobre a traição nas ruas e a importância da família. Clef se destaca com rimas nervosas em cima da batida tranquila, no melhor estilo rap Golden Era.

Então vem a mágica (Outra!). A canção original, “Killing My Soflty (With His Song)” de Roberta Flack (1973) é uma delícia. Aqui na voz (literalmente) de Lauryn Hill, ela engrandece de uma forma única. Começa só com a voz, depois segue somente com uma marcação de bateria eletrônica, seguida das marcações de Wyclef. Um ou outro ajuste aqui, só. Não precisava de mais nada, Hill era um tour de force e essa canção a levou ao estrelato. O single foi número um nas vendas do Reino Unido e afirmou o posto de Lauryn Hill como a maior voz do Hip-Hop moderno. Desculpa Macy Gray, Erikah Badu, Mc Lyte… Mas “The Score” não levou cinco microfones na The Source a toa.

Com essa música, a suspeita de um romance entre Wyclef e Hill aumentou, a ouvindo hoje em dia, após este romance ter sido confirmado (Wyclef era casado na época do lançamento de “The Score” no qual teve um relacionamento secreto com Hill durante o período de produção do disco) a versão soa mais pessoal e mortal.

Após esse turbilhão, scratches e uma batida seca nos retorna as rimas mais soltas, com samplers de Eric B. & Rakim e Afrika Bambaataa e a participação de Diamond D no último verso em “The Score” faixa que permite que o trio relaxe, mesmo assim, as rimas ainda seguem afiadas. Aqui Hill é uma bala, e no trecho em que se afirma como um “alucinógeno natural” que transforma “meninos em homens novamente”, muitos acreditam que seja uma referência ao grupo Boyz 2 Men. Matando na unha!

O rap segue “jazzeado” em The Mask. Lírica brilhante! O trio em coro, informa que todo mundo usa máscaras. As rimas soltam indiretas ácidas em pessoas falsas e Pras brinca que não é “Biggie Smalls” o suficiente para tampar o policial corrupto que está olhando para ele com acusações de assassinato. Em CowboysWyclef informa que “todo mundo que ser um vaqueiro”. Numa crítica a visão de que todo mundo quer ter o poder de uma arma na mão e “ser” a lei. A faixa tem participação de Pacewon  e Young Zee, ambos do grupo Outsidaz, além de Rah Digga trocando rimas com Hill. Pedrada.

A violência das faixas anteriores dá uma trégua e o violão de Wyclef entra em campo na versão de No Woman, No Cry, de Bob Marley. Jamaica vira Nova Jersey e deixa seu sotaque haitiano tocar a canção. A canção lembra que tudo vai ficar bem, mas mesmo pedindo para a mulher para de chorar, o filho ainda morre. Segue o rito da esperança.

O álbum fecha com Manifest/Outro. Um Wyclef furioso em cima de um dedilhar de um violão lembra que cristo foi traído, Hill segue a linha trágica com pensamentos suicidas e Pras segue firme. Em “Outro” o Dj Red Alert que abriu o disco fecha os trabalhos.

O álbum ganhou três remixes de “Fu-Gee-la” (Duas do próprio grupo com Jerry Duplessis, um Sly & Robbie mix, de Handel Tucker) e uma faixa solo curtinha de Wyclef chamada “Mista Mista”.

fugees-gi

Após o sucesso estrondoso do álbum, ficou claro que os três eram grandes demais – o que gerou muitas brigas internas (Além da complicada relação entre Wyclef e Hill) e cada um seguiu seu caminho numa inevitável carreira solo – Coisa que Hill comenta em “Zealots” . Wyclef Jean lançou um álbum onde focava mais na produção e Pras produziu trilhas cinematográficas, inclusive uma faixa foda com o Ol´Dirty Bastard do Wu-Tang Clan. Obviamente quem seguiu melhor foi Lauryn Hill. A cantora lançou o álbum “The Miseducation of Lauryn Hill” em 1998 e o álbum foi sucesso absoluto nas paradas americanas e garantiu a Hill onze indicações ao Grammy de 1999, algo inédito a uma cantora. Ela levou cinco prêmios, dentre eles o de Álbum do Ano e Melhor Cantora do Ano. O álbum é uma preciosidade, mas isso a gente conversa em outro post.

gif-fugees

Fugees – The Score (1996)

 

Visualizacões:   40   Comentários:   0   Curtidas: 0
Comentar (pelo Facebook)

Deixe uma resposta

A password will be emailed to you.