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#SextaTorta – Como o Hip-Hop está em tamanha evidencia em 2016

Publicado:   setembro 16, 2016   Categoria:#SextaTortaEscrito por:Jota1

Pra você que acha que o Hip-Hop começou nos anos 90, na treta com Biggie e Pac, eu tenho uma notícia boa e uma ruim pra você. A ruim é que você está errado, mas a boa é que hoje em dia não faltam boas fontes para você estudar sobre a origem da cultura, como um todo!

Terminei “The Get Down” outro dia e gostei da série. De fato ela é um pouco morna, mas em termos de contextualização, foi sensacional. Nos pontos fortes, adorei a abordagem da decadência da cena Disco, que reinava na época. A homenagem aos grafiteiros dos metrôs de Nova Iorque, com uma produção fantástica, o dilema entre seguir a carreira de Mc (algo novo, incerto e desafiador) ou o estágio no “Mundo branco” de Ezekiel, cujo ator Justice Smith mandou muito bem. A cena em que ele recita o seu poema para sua professora é matadora. É a essência do Rap e deu pra sentir bem o porque de Nas estar envolvido como produtor executivo da série.

Por conta do romance de Ezekiel com Mylene, interpretada pela linda e poderosa Herizen Guardiola, algumas pessoas chamaram a série de “Glee do Hip-Hop“, o que eu achei uma maldade. Fato é que a atriz teve o seu protagonismo na série, se foi demais, aí fica de cada um. Mas eu imagino que se a série focasse demais na busca de Ezekiel por suas rimas e Shaolin por sua benção do Grandmaster Flash, a coisa ficaria didática demais e poderia tomar um rumo documental e acabaria sendo chata. Entretanto, a cultura do Dj, o ensinamento de Flash, o truque do giz de cera e o encontro com Kool Herc, contando a origem dos bootlegs, foi uma verdadeira aula de cultura Hip-Hop, na sua raiz mais profunda. A série deixa ensinamentos preciosos – Alem de uma trilha sonora sensacional.

melhor contextualizando a série, posto aqui o texto do escritor Anderson França, no qual contextualiza bem o cenário da época e como a série cumpriu seu papel eu transportar os complicados anos 70 para a tela. Na série, o personagem de Kool Herc fala brevemente das gangues que existiam até que os Djs fizessem um acordo de paz e a partir disso os Mcs começaram a conscientização de fazer um Rap mais politizado, focado em críticas sociais e em buscar a paz dentro do Hip-Hop. Segue reproduzido abaixo:

“The Get Down, 

nova série da Netflix, em parceria com a Sony Pictures.

Eu queria, humildemente, contar uma coisa pra vocês, e deixar a minha opinião sobre a série.

Depois das mortes violentas de Malcolm X, Rev. Dr. King e Kennedy, nos anos 1960 e do surgimento do The Black Panthers, a juventude de territórios populares em muitas cidades dos Estados Unidos ficaram sem a necessária presença de muitas referências nas lutas raciais.

No entanto, mulheres negras ocuparam um lugar importante.
Sara Webster Fabio, professora, filósofa e ativista, se tornou a criadora do proto-rap.

O que ela fazia, unindo música e letra inspirou dezenas de artistas anos depois. Maya Angelou, com sua militância e poesia, além da imagem forte de Angela Davis, isso para falar apenas de 3 mulheres, que seguraram a marimba do desânimo na travessia dos anos 60 para os 70.

O trabalho intelectual delas e outras mulheres é, na verdade, a gênese do que iria acontecer no Bronx, a partir de 1972.

Porque foram elas que conseguiram abstrair a dor para a poesia e a literatura, com muita sensibilidade.

É no parte sul do Bronx, com o abandono do Estado, que queria “revitalizar” o bairro e para isso iniciou um processo de gentrificação, para rasgarem o bairro no meio e construirem uma avenida, num planejamento de novas ocupações para a classe média emergente, fazendo com que italianos e judeus saíssem de lá, restando apenas negros e portoriquenhos, é nesse contexto que os donos de prédios começam a suspender água, eletricidade e por fim incendeiam os imóveis para receber o seguro e deixar o povo que morava lá na miséria.

A gentrificação do Bronx foi uma violência de classe e racial. Fizeram a mesmíssima coisa na Vila Autódromo.

O Bronx se tornou um lugar estigmatizado por causa dos interesses de Manhattan, na Zona Sul de NY.

A Zona Norte e a Zona Sul.
Duras coincidências.

Nesse contexto de abandono, surgem os primeiros crimes. Dali, pras facções, que em poucos anos se tornaram centenas.

A violência das facções, ou maras, ou gangs, passou a ser um problema central para a prefeitura. Num bairro em ruínas, pretos e latinos disputavam entre si o poder de um território em chamas.

Havia gangs com referências ao nazismo, mesmo sendo formada por negros e latinos. A igreja neopentecostal presente, várias ONGs tentando mediar e nesse processo surge Karate Charlie, que se torna uma das maiores lideranças de gangs, apoiado inclusive pelo Black Panthers, que perdeu força entre os jovens.

Ele fundou o The Ghetto Brothers com Yellow Benji e seus irmãos.
Muito sangue foi derramado entre as gangs, num território imenso onde faltava luz, água, trabalho, escola, mas havia heroína e incêndios em qualquer esquina.

As gangs tinham territórios bem delimitados e uma disciplina interna muito dura. Foi quando um peacemaker chamado Cornell Black Benji Benjamin foi morto numa emboscada de gangs, que tudo mudou.

Ghetto Brothers, que sempre foi uma gang que buscava mediação da paz, com argumentos herdados dos Black Panthers, decidiu vingar a morte de Benji, mas a mãe dele disse pro Karate Charlie:

Meu filho morreu buscando a paz.

Charlie estava com um exército de pessoas do lado de fora da casa dela, pronto para incendiar Nova York.
Mas foi ela quem suspendeu a guerra.

Ghetto Brothers juntou todas as gangs, fizeram um acordo de paz. Descobriram que seu inimigo não estava ali, mas na Zona Sul.

O homem branco.

Em menos de um ano, todas as gangs pararam com a violência e criaram grupos musicais e culturais.

Os chefes de gangs se tornaram DJs, porque SER DJ era algo muito fino, e ser MC era algo novo, como um profeta.

GrandMaster Flash, Afrika Baambata e DJ Kool Herc eram mitos, cara,

LENDAS VIVAS.

Eles não promoviam a violência, mas no meio do caos, faziam música.

Afrika fez a Zulu Nation, antes Black Spades, se tornar um grupo com mais de 2 mil filiados, com jovens que ensinavam outros jovens a fugir do crime.

O trem, a fé, o fim da violência, o fim do choro, o fim das lágrimas, o nós por nós, o sentimento de que não estamos sozinhos na periferia, e a narrativa nasce aí.

No alto dos prédios, as bandeiras de Porto Rico e da Libertação Negra.

Nasce o RAP, a cultura do HipHop, todos buscando ter estilo, não mais andar de roupa suja, mas querendo ser referência.

Então,
eu queria te dizer uma coisa:

Se você não está vendo The Get Down com esse background, não venha me dizer que é apenas um “Glee” de pretos.

Porque eu, pessoalmente, acho que você está sendo desrespeitoso com a História.

Tem representatividade. Tem preto passando mensagem. Mensagem fundamental para os dias de hoje. Tem periferia. Tem latinos, tem classe. Tem sonho. Tem rap.

Get Down é um recorte, pequeno, poético, sobre algo que,
nem em um milhão de livros

caberiam

se fossem contados.

Fala pra eles que é o rap.”

Além da série – e outros documentários, como o Rubble Kings, também disponível na Netflix – soube há pouco, pelo Vitralizado, do lançamento aqui no Brasil da HQ “Hip-Hop Family Tree“, que ganhará o nome de “Hip-Hop Genealogia”. A série de livros, que foi bastante elogiada lá fora, terá sua primeira edição lançada nas próximas pela editora Veneta. O Ramon (do Vitralizado) ainda bateu um papo com o quadrinista Ed Piskor sobre a série e a entrevista você pode conferir na revista Rolling Stone desse mês.

Falando no Ramon, tou vacilando e ainda não publiquei a entrevista que fiz com ele aqui. Que vacilo! mas logo sai…

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Além disso tudo, o Hip-Hop não para por aí. Já cantei a bola sobre o como a série do Luke Cage homenageará o Hip-Hop desde o nome dos episódios até em participações especiais no elenco.

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Então, o Rap e o Hip-Hop estão aí. Na sua TV, nos livros e em HQ´s. Se na música, a cena anda fraca – tanto lá fora quanto aqui – pelo menos não pode reclamar de como não saber do nascimento da coisa toda. Inclusive, como prometi num post anterior, vai SIM rolar o bate papo sobre o Rap e o Hip-Hop nos dias de hoje. Lá pro final do mês e tal, calma que tou ajeitando tudo. =*

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1 Comentário

19 de setembro de 2016
Muito bom o texto, mano. Discordo sobre a cena nacional estar fraca, mas muito bom o texto.
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