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Crítica – Gen – Pés Descalços

Publicado:   setembro 6, 2016   Categoria:Criticas , Filmes e séries , HQ´s e Livros , OpiniãoEscrito por:Italo Goulart

Com os olhos marejados e com um gosto amargo na boca, começo a escrever sobre esse filme.

Os japoneses são mestres em explorar as capacidades humanas de sobreviver e se adaptar, mas mais ainda, são capazes de mostrar em livros, filmes e animações a parte podre do ser humano.

Achei que a animação Cemitério dos Vaga-lumes(Hotaru no haka, 1988) fosse a definição dos terrores da guerra feita em desenho, mas hoje assistindo Gen – Pés Descalços(Hadashi no Gen,1983) vi a guerra por outro ângulo, a história é tão visceral e per tubadora quando no Cemitério dos Vaga-lumes, mas acompanhamos muito mais do que os simples efeitos da guerra em si, conseguimos acompanhar também os efeitos imediatos da bomba jogada em Hiroshima, numa atmosfera quase palpável.

Cemitério de Vaga-Lumes
Cemitério de Vaga-Lumes

No filme a gente segue de perto a vida da família de Gen, com seu irmão mais novo Shinji, sua irmã Eiko, seu pai Daikichi e sua mãe grávida Kimie. Estão vivendo numa situação muito precária por conta da guerra que já se arrasta por 5 longos anos, a fome é um fator frequente na rotina da família.

O pai de Gen planta trigo que é a principal base da alimentação deles, mas a época da colheita ainda está longe, enquanto isso eles fabricam sandálias de madeira para conseguir dinheiro para se sustentar. Daikichi é ridicularizado em toda vizinhança por odiar a guerra e achar que o Japão deveria se render, por conta desse pensamento ele já tido como traidor, já foi torturado e espancado pelos militares, e isso também o levou a perder todos os seus clientes.

Cena do filme, Gen e sua família
Cena do filme, Gen e sua família

O filme ele consegue levar o espectador a uma imersão grande da história, a narrativa é bem fluida e muito bem pensada a ponto de esquecermos o que está acontecendo para simplesmente torcer para que a família consiga algo para comer no fim do dia, esse clima só é quebrado quando somos tirados desse “transe” com o som da sirene indicando um possível bombardeio, é quase um soco no estômago essa quebra de clima.

Cena do filme
Cena do filme

Gen – Pés Descalços, mangá

Por um momento você é até levado a pensar que é só mais uma história difícil mas que vai dar tudo certo no final, mas isso dura pouco e sem economizar em nada na brutalidade e verdade que a guerra e suas tragédias trazem, mesmo sendo um desenho ele é capaz de derrubar lágrimas e engolir seco em algumas cenas. É aquele tipo de filme em que você fica pensativo durante muito tempo por tudo que você acabou de ver e tenta assimilar tudo e se convencer que é só um desenho, mas somos totalmente tragados pela neblina da quase surreal situação que você acabou de assistir.

O grande acerto do filme não é focar na vitimização do Japão, mas sim deixar claro que a culpa maior é justamente do governo.

Gen - Pés Descalços, mangá

Inicialmente lançado como mangá por Keiki Nakazawa em 1973, Gen – Pés Descalços foi uma revolução no que se trata do assunto Bomba Nuclear.

Em sua infância, Keji viu seu pai e seus dois irmãos morrerem queimados no primeiro ataque á Hiroshima com a bomba nuclear. Ao se tornar cartunista sempre evitou usar a bomba como material de trabalho, até que aos 33 anos perdeu sua mãe. Descobriu que as causas da morte dela foi o tempo prologando exposta á radiação, e isso foi como um golpe muito grande pra ele, o que fez ele começar a escrever Gen. Ele tomou a morte de sua mãe, como uma mensagem que o mundo precisava saber de todo o horror da guerra e que não poderíamos deixar que isso acontecesse de novo.

Nos anos 70, Keiji lançou Gen no Japão e logo voluntários japoneses e estrangeiros se juntaram para passar as primeiras edições para o inglês, o que aumentaria em muito o alcance das publicações, e conseguiu. O mangá virou filme, animação e até opera. O livro serviu para que muitas pessoas que não tinha conhecimento do que realmente aconteceu em Hiroshima, vissem todo o terror da guerra e dessa arma devastadora que é a bomba atômica.

Maus, hq ganhadora do Prêmio Eisner
Maus, hq ganhadora do Prêmio Eisner

O fato da obra de Keiji ter sido feita em mangá também ajudou bastante a propagação de seu trabalho e mais uma vez, assim como em Maus(Maus: A Survivor’s Tale, Art Spiegelman 1986-1991), uma história de guerra pode ser tratada de forma explicita que talvez não coubesse ou não ficasse tão transparente as intenções, se fosse publicada em livro.

Lembrando que Gen – Pés Descalços já ganhou duas animações e filme live-action, procurem por que tenho certeza que irão gostar.

Material de apoio

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1 Comentário

6 de setembro de 2016
mano... arrepiei aqui!! Vou procurar!
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