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#NosFones – Chicão MC – A Cor. Rap do bom como poucos hoje em dia.

Publicado:   agosto 18, 2016   Categoria:MúsicaEscrito por:Jota1

Estou escutando pela terceira vez e devo escutar bem mais. Num primeiro momento, achei estranho que na primeira música, meu brother Chicão MC, no seu terceiro (?) álbum “A Cor” (Que capa linda hein?!) só aparece lá pros dois minutos e pouco da musica “Minha Cor”. Mas lembrei do Chicão na praça, nas rodas de rima. Ele fica ali, na dele, tranquilo, e realmente aparece quando pega o microfone e solta sua rima com sua voz grave e firme, o que justifica sua presença “talvez até confusa, mas real e intensa”. A faixa começa com o dedilhar de um violão, a voz deliciosa de Sarah Lima massageando a faixa, um poema foda de Mc Will e o violão de violão de Luciano Costa permeia e dá suingue em todo o álbum. Bela faixa de boas vindas. Em tempos em que muitos usam da temática do racismo com um pouco de hipocrisia e coitadismo, aqui a cor negra é celebra com orgulho, sem esquecer-se das lutas diárias que o povo negro enfrenta.

A faixa seguinte “Navio Negreiro” mantem o suingue e faz um paralelo interessante com os resquícios da escravidão que persistem até hoje, inclusive de maneira disfarçada e velada. A faixa tem uma bateria mais presente e é tocada com seus parceiros do De Quebra. Em “A Rua te Chama” o sampler de piano da o tom mais grave da faixa. Rap puro, terreno onde Chicão se sente mais em casa. A letra é rua pura e as tretas que ela pode te proporcionar. Destaque para o flow bacana e limpo do Fala Ribeiro. Faixa foda!

O violão de Luciano Costa reaparece em “O Tempo Passa”. É aquela faixa onde você olha para trás e revisita as lutas, tretas e amores que você venceu. Então o rap toma de conta novamente em “Bandido”, faixa foda, foda, foda que tem um beat que parece ter sido feito por Kev Brown mas foi produzida por Dave Sparks (Não conheço, mas já sou fã). Pesada, densa e que letra! Enquanto uns idolatram raps que pagam de bandido, aqui Chicão e Fala Ribeiro rimam (que flow!) sobre como é crescer na periferia, em meio à violência, bandidagem, preconceito e mesmo assim, não ir para o lado negro da força e seguir em frente de cabeça erguida e ser um cidadão decente. Outra faixa foda, e ganhou clipe:

Em “Ela é demais” uma vibe beira de praia. É a música mais romântica do álbum, mas ainda segue boa pra pista. Não soa brega como as músicas do Projota. (hehehe) É o tipo de música que o MC mostra que é diverso, apesar de ser geralmente ser arriscada, a música tem uma vibe bacana.

Mas o romantismo sai de cena e o grave mais Rap DF entra em cena na “O que Eu Tenho Visto”, com Marinho e Desacatto. Ao invés daquele flow arrastado que muitos MCs do DF usam, quando o beat tem um bpm mais lento, aqui ouvimos uma variação de flow e punchlines mais eficientes, deixando a faixa com uma velocidade bacana e mostra uma versatilidade foda dos mcs participantes e um refrão muito foda!

O álbum termina com “Amante da Poesia”. Uma homenagem aos MCs e poetas que encontram na calada da noite inspiração para compor. É bacana demais a forma como Chicão e DeJAH demonstram aqui que a poesia pode ser grave. Poesia periférica, da madruga, por que poeta de periferia passa pro papel o que a rua lhe ensina. Luciano Costa aqui dá uma leveza pra faixa, mas mantendo o grave pesado.

chicão
Chicão MC em ação.

O Álbum tem pouco mais de meia hora de um rap muito mais bacana e eficiente que muito rap auto-ajuda meloso que tem por aí. A maioria das faixas é produzida pelo bom e velho WTY. Parece que o “rap de protesto” ficou nos anos 90, conforme a classe mais pobre das favelas melhorou de situação financeira. Hoje, a molecada tem telefone de última geração, tênis daora e etc, mas os problemas sociais, o racismo, a falta de emprego continuam os mesmos. Essa é diferença! Hoje o cara faz música falando de balada, de como conseguiu pegar aquela mina do Park Way por que anda de carrão, PORRA! Isso não é rap, na boa! Você fez seu corre e melhorou de vida, beleza! Bacana ver seu trampo ser reconhecido, mas a molecada da favela tem que ouvir que é na escola e ajudando os pais em casa que ele vai garantir seu futuro, e não pensando em festas e bebidas.

Por mais raps assim! Resgatando o orgulho em ser negro, orgulho em ser poeta, rimador. Bem produzido, com participações bacanas. Um álbum bem fluído. Só senti falta de uma faixa sem nenhuma participação. Aquela faixa que você escreveu sozinho e que é a sua preferida, embora eu acho que “O Tempo Passa” cumpre bem essa função. O Álbum também está disponível no soundcloud.

Parabéns Chicão! É com muito orgulho que digito essas palavras. Longe de ser uma crítica, que isso. A gente se fala na praça, forte abraço!

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