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Dissecando o Álbum: “Californication” A ressurreição do Red Hot Chili Peppers.

Publicado:   agosto 3, 2016   Categoria:MúsicaEscrito por:Jota1

red hot

No final de 1991, com “Blood Sugar Sex Magic” o Red Hot Chili Peppers era uma das melhores bandas naquela época mágica em que o grunge e o gangsta rap dominavam as rádios, mas a pegada funky da banda garantiram 19 milhões de cópias vendidas, uma turnê mundial e o inesquecível clipe de “Give it Away”. O que a banda não esperava, era o inferno que iria passar até seu renascimento em “Californication” em 1999.

Os Peppers estavam a mil, porém a pimenta estava secando. Tiveram problemas na Europa, sendo expulsos de alguns shows – Os europeus não lidaram bem com o sex-appeal californiano – e com a exaustão da turnê, o guitarrista John Frusciante decide sair da banda a poucos dias do Lollapalooza, onde eram uma das atrações principais. Arik Marshall foi à solução improvisada, mas não tinha a mesma criatividade de John. Após Marshall, Jesse Tobias entrou na banda, mas não ficou muito tempo, até que Dave Navarro (Isso mesmo, o do Ink Master) foi chamado para ser o guitarrista definitivo da banda, onde gravaram o mediano “One Hot Minute” de 1995.

john-frusciante
John Frusciante

Em 1998, Navarro decide sair da banda.  Enquanto isso, John Frusciante estava se afundando feio nas drogas e sua casa sofreu um incêndio que o fez perder suas guitarras, após isso, o eterno guitarrista aceitou entrar numa clínica de reabilitação. O RHCP estava prestes a cair no esquecimento, porém o genial baixista Flea, em conversa com o vocalista Anthony Kiedis, deu a real sobre a situação: “A única forma de continuar que consigo imaginar é se John voltasse pra banda”. Flea visitou o velho amigo e John, ao ouvir a proposta do vocalista, respondeu trêmulo: “Nada no mundo me faria mais feliz”. Esse momento lindo definiria um novo rumo a banda, com o álbum “Californication”, lançado no ano seguinte.

O processo de criação do álbum foi lento e necessário. Frusciante estava sem tocar guitarra por muito tempo e estava tocando com uma Stratocaster que Kiedis comprara pra ele. Mas isso não impediu o músico de fazer várias experimentações no seu som, com influências de Public Enemy, Eric Clapton, The Cure e Black Flag: “Nós começamos [a ensaiar] em junho de 1998, mas tiramos um pouco de férias por motivo ou outro. Gastamos cerca de quatro meses ensaiando e compondo, e então entramos no estúdio e gravamos tudo em três semanas.” – John Frusciante, em entrevista a Guitar Player, em 1999.

A produção do disco ficou por conta do monstro Rick Rubin, que já trabalhava com a banda, no entanto, a participação do produtor era de dar mais liberdade à banda, como explica o próprio John na mesma entrevista a Guitar Player: “Ele não se envolve com a composição, mas tem um papel importante na construção das músicas. Ele nos fala se uma música precisa de mais uma parte e nos ajuda a equilibrar as músicas de modo que não tenhamos sessões longas ou curtas demais. Ele é o produtor perfeito para nós”. Leia a entrevista completa aqui.

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Dissecando o álbum.

Pois bem, agora que você já sabe o caminho da banda até o estúdio para gravar esse clássico, vamos mergulhar no universo hollywoodiano que a banda nos apresenta em “Californication” Um álbum único, que mostra o auge de uma banda do final de uma década onde comprar CD´s e acompanhar a letras do encarte do álbum enquanto o CD rolava no discman era legal demais – falo de mim mesmo nessa parte. A maior parte das letras foram compostas por Anthony Kiedis e John Frusciante, que rementem ao passado recente da banda: Fama, morte, drogas, viagens e vida caótica de Hollywood. Um álbum ótimo do início ao fim e que nunca perde a sua força.

Falando em força, o álbum começa com a lapada funky de “Around The World” onde a banda deixa claro que voltou com tudo e notamos as características mais bacanas da banda. O baixo slap de Flea conversando genialmente com a guitarra de John Frusciante e este também fazendo um backing vocal que iria permear com outras músicas do álbum com uma sutileza muito elegante. A bateria marcante e versátil de Chad Smith, e um Anthony Kiedis que entre versos rimados, gritados e outros mais melódicos, apresentou uma nova característica vocal que impressionou os fãs e a crítica.

Em seguida temos “Parallel Universe” que continua firme na guitarra com um dedilhado fodão e tenso. Parece ser uma lapada a pessoas falsas, onde Kiedis diz que é uma “Sidewinder, uma California King” que são duas raças de cobras, fazendo um paralelo legal quando ele grita no refrão “Im a Californiiiiaaaa Kiiiiing!!!” e a música encerra com um solo de guitarra matador de John.

Depois de duas lapadas, somos agraciados com uma guitarra que começa tímida, e nos presenteia com uma das melhores canções de todos os tempos. “Scar Tissue” é uma música que muda vidas e é a que mais diz sobre a última década da banda e as cicatrizes dos dias infernais que viveu. A mais difícil de ser composta e quase não foi para o álbum final, até que Jonh apresentou o riff final, se inspirando em “Carnage Visors” do The Cure. John brilha na guitarra e é impressionante notar como essa música tem dois solos de guitarra e mesmo assim tocou incansavelmente nas rádios e até em baladas. No clipe, mais oportuno impossível, a banda está numa estrada, rumo ao por do sol com suas cicatrizes e feridas, John brinca com uma guitarra quebrada e eles param no meio da estrada onde tem alguns instrumentos quebrados e queimados. Era a banda renascendo. Uma música que depois de quase vinte anos ainda continua linda.

“Otherside” é outra dessas músicas que são cantadas em coro em estádios lotados até hoje. Seus acordes médios são o sinal verde para um Anthony Kiedis inspirado. “How looooooooong, hooow loooooooooooong… Will i slide… SE-PA-RA-TE my saaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaade ” impossível não cantar junto e sugere que o relacionamento curto de Kiedis com a Mel C (Spice Girls) tenha influenciado essa música, assim como em “Emit Remmus”. e assusta por sugerir um flerte com o suicídio…

Então somos surpreendidos por “Get on Top”, Funky, rápida, pesada, com uma guitarra inspirada em Public Enemy, nos remetendo aos tempos de “Blood Sugar…”. Logo em seguida a música que dá nome ao álbum e me lembro como se fosse hoje, 99/2000 eu com o cd original na mão, acompanhando as letras, e o clipe de “Californication” passando na MTV. Perto dos anos 2000 muitas bandas e artistas querendo pagar de modernos usavam e abusavam dos efeitos toscos, do prateado nas roupas. RHCP apareceu com um clipe em animação de vídeo game, estilo Playstation 2 que era o desejo de todo adolescente na época. Quem não se lembra desse clipe!? Que foda, que genial. A música fala sobre como o mundo bebe da indústria californiana, numa crítica certeira, tanto ao que é produzido em hollywood e para as pessoas que admiram a Los Angeles das celebridades, festas e cinema: “Pay your surgeon very well, To break the spell of aging” (Pague muito bem seu cirurgião, para quebrar o feitiço do envelhecimento) É a Californização. Mais um hit imortal do álbum, e com uma estrutura lírica impressionante de Anthony Kiedis em vários versos: “Space may be the final frontier, But it´s made in a Hollywood basement, Cobain can your hear the spheres, Singing songs off station to station, And Alderaan´s not far away, It´s Californication”. – (O espaço pode ser a fronteira final, Mas ele é feito em um porão de Hollywood, Cobain você pode ouvir os astros, Cantando canções vazias de estação em estação, Cantando canções vazias de estação em estação, É a Californização). Kurt Cobain, Star Wars e uma crítica aos astros perdidos de Hollywood num único verso. que coisa linda!

Easily” é uma pauleira rockeira com uma bateria seca e um dos solos de guitarras mais primorosos do álbum. A balada “Porcelain” remete a uma garota que Kiedis conheceu no YMCA, que estava tratando seu vício de álcool enquanto vivia com sua filha bebê. “Emit Remmus” Explicita mais ainda o termino de relacionamento de Kiedis com Mel C. “Poderíamos ser melhores que uma garota inglesa e um cara americano” e faz uma brincadeira com a palavra “summer time” e o relacionamento curto do casal. A música começa com uma conversa de baixo e bateria até a a guitarra de John vir ácida e distorcida dando vida à mágoa de Kiedis. Lapada!

“I Like Dirt” Dá uma suspirada e nos remete novamente aos tempos de “Blood, Sugar…” Lapada funky e depravada que a banda soube manter em meio a músicas mais melódicas, mostrando que não perderam o gingado mesmo depois dos anos difíceis. Um equilíbrio bacana entre melodia e gingado vem em “This Velvet Glove” uma música com um refrão intenso e certamente deve ter inspirado bandas como The Black Keys. Com um trabalho de cordas bacana, remete a o Kiedis que está renovado e pronto pra encarar um novo amor.

Em “Savior” o que mais chamou a atenção de todo mundo foram os efeitos de guitarra mais pesados do que o de costume. A música tem uma estrutura meio maluca numa primeira audição, mas ainda assim é bacana. A letra fala de um salvador e herói renovado, algo do tipo. O punk funk continua em “Purple Stain” que sugere uma brincadeira bem dirty com menstruação. kkkkkkkkk imagino esse som sendo gravado em jams de funk nervosas, como muitas das canções foram criadas. “Right on Time” segue o mesmo modelo funk punk. A música parece que já começa na metade e é a mais curta do álbum.

Então, finalizando o álbum, após porradas funks e músicas mais melódicas e mostrando um Red Hot se recuperando de lesões amorosas e desastrosas, mais uma obra de arte que te convida a sonhar com uma viagem a Califórnia, com seus amigos e depois de horas de viagem, encontrar-se com o mar e dar aquele primeiro mergulho. “Road Trippin´” fala de uma viagem de Kiedis, John Frusciante e Flea pela estrada da costa da Califórnia para surfar no Big Sur, assim que John retornou a banda. Totalmente acústica e uma das poucas faixas que não utiliza bateria. Assim, no clipe, o baterista Chad Smith só aparece no finalzinho, chegando de barco.

“Californication” ainda ganhou uma versão deluxe com B-Sides como “Fat Dance”, “Over Funk” e “Quixoticelixer”. O álbum ainda rendeu um Grammy de “Melhor canção de Rock” de 2000 por “Scar Tissue” e a música conseguiu um recorde de 16 semanas no topo da parada de sucessos “Hot Mainstream Rock Tracks, da revista Billboard“. O álbum é o mais bem sucedido comercialmente da banda, tendo vendido 33 milhões de cópias ao redor do mundo e ele está no ranking dos 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame.

“Californication”  fez o Red Hot voltar a encher estádios e fazer turnês pelo mundo. O álbum foi aclamado pelos fãs e pela crítica, estes que, não poderiam imaginar que a banda pudesse voltar a ativa depois de um álbum fraco e problemas pessoais. No entanto, os Red Hots voltaram com um som muito mais elaborado, melódico, belo e mantendo suas raízes funk que são a cara da banda. Um clássico!

Tracklist:

1 – Around the World
2 – Parallel Universe
3 – Scar Tissue
4 – Otherside
5 – Get On Top
6 – Californication
7 – Easily
8 – Porcelain
9 – Emit Remmus
10 – I Like Dirt
11 – This Velvet Glove
12 – Savior
13 – Purple Stain
14 – Right On Time
15 – Road Trippin’

“Californication” foi lançado em setembro de 1999. Todas as faixas foram escritas por Anthony Kiedis, John Frusciante, Flea e Chad Smith.

 

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