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#SextaTorta: Amigos, amigos. Negócios a parte?

Publicado:   junho 10, 2016   Categoria:#SextaTortaEscrito por:Jota1

Esse é o tipo do post que iria começar despretensioso, sobre o primeiro longa da Adidas Skateboarding, “Away Days“. Depois de uma série de episódios em conjunto com a Thrasher, que serviram de esquenta para o longa, a marca das três listras soltou o vídeo acima, anunciando que a versão para iTunes já estava disponível para os usuários da plataforma e o que parecia ser mais um vídeo promocional, causou um MINDFUCK geral no mundo do skate –  depois do trailer e das premieres que aconteceram em diversas cidades do mundo, inclusive em São Paulo

Acontece que, além do vídeo já reforçar o elenco espetacular que a Adidas reuniu, com nomes como: Mark Gonzales, Dennis Busenitz, Silas Baxter-Neal, Lucas Puig, Rodrigo TX, Mark Suciu, Pete Eldridge, Alec Majerus, Miles Silva e etc. Dois nomes são introduzidos no final do vídeo: O ninja Daewon Song, e o nome que surpreendeu a todos: Marc Johnson.

Pra você que não é muito habituado no mundo do skate, não é exagero dizer que Marc Johnson é para o skate o que Messi é para o futebol (caralho!). Dono de um estilo próprio e incomparável, técnica que beira a perfeição nos movimentos e até então era o principal nome da marca de tênis Lakai dos skatistas e amigos (?) Mike Carroll e Rick Howard. Além da parte abaixo, de 2012, MJ foi Skater Of The Year em 2007 pela sua clássica e memorável parte no vídeo “Fully Flared“, ambos da Lakai. 

A surpresa de todos ao ver Marc Johnson ser anunciado na Adidas, sem nenhuma despedida, nem pronunciamento oficial da Lakai ou algo do tipo, como sempre acontece quando um skatista migra de uma marca a outra – principalmente marca de tênis, que é o principal patrocínio do skatista – foi enorme, ainda mais, quando muitos se lembraram da entrevista que ele deu a Jenkem Magazine  – traduzida e gentilmente cedida pelos caras da Black Media (Valeu!) – onde MJ fala abertamente sobre como as grandes marcas de tênis, entraram no mercado do skate de forma prejudicial as skateshops e as marcas menores e que são de “skatista para skatista”. Vale a pena ler toda a entrevista no link em destaque. Neste post, irei destacar os pontos cruciais para o assunto deste post.

Jenkem: Se uma grande empresa de tênis esportivos te pagar duas ou três vezes mais, você sairia da Lakai?

Marc Jonhson: “Ok. Não, eu não andaria por uma grande empresa esportiva. Eu não andaria pela Grande Empresa Esportiva.”

Depois da declaração, MJ fala sobre como essas GEE agem dentro do mercado: “A razão de algumas marcas de tênis de skate estarem com problemas é o “sim” de algumas pessoas à GEE. Algumas pessoas decidiram pegar esse dinheirão, e aí outras seguiram, e depois mais algumas. Essas pessoas, que pegaram o cheque, legitimaram as GEE no NOSSO mercado. Alguns profissionais são pagos para apoiar o envolvimento da GEE no skate, e aí os moleques pensam: “Bom, se tal cara e tal cara estão dizendo, então deve ser legal.” As crianças crescem achando que a GEE no skate é normal. Eles não sabem que houve um tempo em que o skate não era popular e a GEE não chegaria nem perto.”

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MJ. Foto: Ben Collen

“A GEE nunca ligou pro skate, até ver quanto dinheiro estava envolvido nisso. BILHÕES de dólares são gerados pelas empresas envolvidas no skate. Milhões de crianças andam de skate, que já foi aceito pela sociedade como uma atividade dos jovens. E uma atividade muito lucrativa se você está no negócio de vender produtos pro skate. O skate se tornou tão mainstream que até pessoas que não andam estão comprando roupas relacionadas ao skate.”

“A cultura jovem é um negócio muito lucrativo e, agora que o skate é uma grande parte disso, muitas empresas chegam de limusine no skatepark e começam a preencher os cheques. Porque ninguém vai ligar pras GEE se elas não tiverem profissionais bem respeitados dizendo aos garotos que é legal. Então, a GEE preenche esses grandes cheques, e a maioria dos pros olha pro número e diz: “Isso é mais dinheiro do que eu vou ganhar em três vidas andando pras marcas menores. Tenho que fazer o melhor pra mim.””

Leiam de novo: “Tenho que fazer o melhor pra MIM.”

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Anúncio da Lakai com Marc Johnson

“Dá pra entender também. Porra, você se joga de escadas por 10, 15 anos e mal consegue pagar suas contas, e aí vem um cara que parece skatista, contratado por alguém de terno, e te oferece mais dinheiro do que você verá em 100 anos. Provavelmente, você vai aceitar. Você tem que fazer o que é melhor para VOCÊ, certo? Sim, você provavelmente vai pegar a grana.”

“A carreira média de profissional dura uns cinco anos, e a maioria dos pros sai do negócio sem nada, a não ser duas partes de vídeo e uma sala cheia de pro models antigos. Saem do negócio sem nada útil fora do skate, muito menos dinheiro. Você acha que as marcas de skate ligam pros skatistas depois que eles param de ser úteis e vendáveis? NÃO. O skatista fica por conta própria. Nenhuma empresa vai cuidar do futuro do seu pro favorito. É assim que funciona. Eu estou vendo isso por 23 anos.”

Há dois lados nessa moeda. Vou apenas dizer que algumas das pessoas mais sombrias, baratas, gananciosas e desonestas são ex-skatistas que estão no comando de marcas “core”. Só porque a empresa é core não significa que as pessoas no comando são boas. São apenas pessoas tentando fazer o máximo de dinheiro possível. O fato de eles terem andando por alguns anos não significa nada se eles são imbecis egoístas. E, na maioria das vezes, esses ex-skatistas SÃO imbecis.”

É uma puta entrevista! Podemos notar o posicionamento de MJ contra as “GEE” dentro do mercado do skate e também podemos notar que ele tem um senso de realidade quando se trata do futuro de um skatista, que tem carreira curta e como as próprias marcas de skate “descartam” seus atletas depois que estes se aposentam.

Então a grande pergunta: “Se Marc Johnson disse que nunca andaria por uma Grande Empresa Esportiva, o que fez ele aceitar a andar pela Adidas?”

Assim que soube do anuncio, Mike Caroll dono da Lakai, entrou em contato com a Jenkem magazine e concedeu uma entrevista falando sobre o assunto, e os caras da Black Media também a traduziram e permitiram a reprodução aqui. (Leia toda a entrevista no site dos caras)

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Jenkem: “Existiam rumores, durante um tempo, sobre o Marc Johnson deixar a Lakai, e agora ele realmente entrou na adidas. O que aconteceu?”

Mike Carroll: “Esses rumores existem há anos. Eles estavam atrás do Marc há anos. Ele foi sincero o suficiente, anos atrás, pra nos dizer que tinham feito uma oferta e, na época, nós conseguimos cobrir a oferta deles. Deu tudo certo. Também acho que ele não queria sair na época; ele queria ficar na Lakai. Financeiramente, como todos sabem, tem sido difícil. Tivemos que tomar algumas decisões e reajustar coisas, diminuir o salário de algumas pessoas, ele incluso. Mas ele foi compreensivo e nós conversamos sobre isso. Aí, recentemente, tivemos que tomar mais decisões e ele seria afetado de novo. Durante anos, ele recebeu um bom salário, e nós fizemos o máximo pra não mudar isso de jeito nenhum. Mesmo nas épocas difíceis, não tiramos nada dele, mesmo cortando o salário de outros. Ele sempre foi bem protegido quanto a isso, mas chegou num ponto onde não havia mais onde cortar.

Tivemos que reduzir o salário e eu falei pra ele: “É uma merda. Você tá nisso há anos, dando o máximo, seu sangue, suor e lágrimas e eu não me sentiria confortável pedindo pra você ficar”. Conversamos por um tempo, e eu sabia que ele ia acabar andando pra eles. Todo mundo começou a falar dos rumores de novo, mas foi uma decisão mútua e totalmente respeitosa. Foi um momento triste. Foi uma bosta pra mim ter que falar pra ele: “Você deveria aceitar a melhor oferta, porque esses caras estão vindo com tudo pra te pegar”. Ele tem quase 40 anos. Acho que, nessa idade, você deve ir atrás do seu. E, se ele ficasse, eu não queria que ficasse se sentindo arrependido.

Mandei um acordo de encerramento pra ele há mais de um mês. Nesse acordo, nós pedíamos que ele segurasse o anúncio um pouco, porque nós tínhamos nosso produto. O acordo era pra nos proteger e à produção também. Mas disse que estava aberto pra conversar sobre o acordo e mudar qualquer coisa. Pedimos que ele mantivesse o segredo por um tempo, mesmo sabendo que era pedir muito. Mas… É pra isso que ele ganha… Aí ouvi mais rumores e tentei falar com ele durante uns dois dias; ele não me respondeu. Aí, tive que ser direto: “Ei, ouvi dizer que o anúncio vai ser feito na première do Away Days. Como assim?”. Achei que ele ia ficar no time até o verão ou julho. Aí, ele finalmente me respondeu, mas foi tipo: “Não, não vai ter anúncio… Quem disse isso?”. Aí perguntei de novo: “Não vai ter anúncio nenhum amanhã?”. Ele disse: “Não”. Aí, no dia seguinte, na noite da première, recebi uma mensagem: “Marc acabou de ser anunciado no vídeo”. Eu fiquei tipo: “Isso é uma loucura. Ontem, no telefone, ele me disse que nada aconteceria”.

Ele podia ter me ligado, falado comigo, e dito que não dava pra esperar tanto, manter o segredo por muito mais tempo, por causa dos termos do acordo ou sei lá. Nós somos amigos, vamos resolver isso. Ou, se não for uma coisa entre amigos, vamos deixar os advogados conversarem.

Sobre a “surpresa” Carroll disse: “Eu tô puto porque ele me disse, na cara dura, na noite antes da première, que não haveria anúncio nenhum, que ele conversaria com o advogado pra gente resolver tudo isso. Todas as pessoas que trabalham duro por ele, que desenham os tênis, o pessoal de vendas, da produção, o time… Todo mundo da Lakai estava lá na première e tomaram a notícia na cara… Ninguém fez nada pra merecer isso. Descobrir desse jeito? Nos fez parecer um bando de idiotas, porque esse cara é um mentiroso patológico. Não foi homem pra me dizer a real. Uma noite antes ele podia ter me dito… Eu ficaria puto, mas ele teria sido honesto e eu poderia avisar o time antes da première. Recentemente, aconteceram algumas coisas na vida dele, e eu respeito sua privacidade e distância. Eu só estou desapontado mesmo pelo modo como ele levou tudo isso. Estou curioso com o que ele vai dizer pra se defender. Mal posso esperar pra ver qual a mentira que ele vai usar pra justificar o que fez.

Jenkem: “O que você vai fazer com o produto que leva o nome dele e ainda não foi lançado? Geralmente, como uma empresa age quando esse tipo de coisa acontece?”

Carroll: “Mandar tudo pra casa dele, pra pagar na entrega, com uma cinta de pinto e sem vaselina. Bom, o que nós vamos fazer agora é o seguinte: primeiro, vou tirá-lo da Chocolate (Marca de shapes também de Carroll, na qual MJ era do time de skatistas). Não vou mandar mensagem, então ele pode ler isso aqui ou alguém avisa ele. Talvez, na cabeça dele, ele já tenha saído, quem sabe? O Marc não anda mais pela Chocolate a partir desse momento. Vamos arcar com as consequências. Quanto aos tênis, temos muita coisa em produção agora. Normalmente, quando isso acontece, as empresas tomam atitudes legais, mas acho que isso não tem a ver com a nossa personalidade. Estou começando a considerar, mas isso não está no topo das prioridades.”

Deu pra sentir a treta né? Como bem lembrou a Black Media: Apesar de parecer uma notícia mais pro lado da fofoca inútil, você pode levar como um retrato do que vem acontecendo no mercado do skate mundial, onde grandes marcas estão conquistando seu espaço e temos todo tipo de visão sobre o assunto. Superficialmente, essa entrevista pode parecer uma coisa pontual, pequena. Mas posso dizer sem medo que ela é um pequeno spin-off de uma discussão muito maior e que merece toda a atenção do mundo.”

Até o momento Marc Johnson não se pronunciou quanto a entrevista de Carroll e sua demissão da Chocolate. Como justos que somos, temos que esperar MJ aparecer e explicar o porquê do anúncio surpresa. Cláusula contratual da Adidas? Será que já havia um ressentimento com a Lakai? Só o tempo dirá. A grande questão é: Existe um limite entra “amigos, amigos. Negócios a parte”? Será que vale a pena manter os laços com aquela parceria que você ama tem há anos, porém vendo seu salário declinar, ou assinar o contrato com uma grande corporação e garantir um salário bem maior?

Podemos usar as questões acima em váárias situações: Aquela banda que todo mundo aponta o dedo e diz que “se vendeu” porque deixou de fazer o som que fazia depois que assinou contrato com uma grande gravadora (Oi D2!), aquele ator que era foda em filmes B de baixo orçamento, mas passou a fazer mocinhos idiotas para grandes distribuidoras, àquele site que tinha um conteúdo foda, mas se tornou sensacionalista para vender canecas, camisetas e fazer mega eventos…

No mundo do skate esse assunto que há alguns anos surgiu naquela roda depois do rolê, agora atingiu um boom enorme agora. As marcas menores estão morrendo e o exemplo de MJ provavelmente irá fazer muitos skatistas a repensarem suas carreiras. Viajar com a marca e ter nome de shape é legal, mas e daqui há 10, 20 anos?

Fato é que essas pessoas tem família, casa, contas e a melhor forma de mostrar que amam o que fazem é ganhar dinheiro – de forma justa, claro – fazendo o que gostam. É legal ver os artistas/atletas pessoas que gostamos manterem as raízes do que fazem, mas a gente nunca pensa em como essas pessoas pagam as suas contas dentro desse mundo. Dizer que alguém “se vendeu” é fácil, difícil é saber se a pessoa está satisfeita com aquilo. Aquela turnê pode ter sido foda mas, se na volta pra casa os boletos e contas te encaram, aí a coisa aperta…

E você?! O que acha disso tudo? Acha que é melhor ter uma carreira mais ou menos, apertada, mas do lado dos parceiros/projetos que gosta, ou as pessoas devem sim, aproveitar as oportunidades mesmo que isso seja a base de respeitar contrato

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