Papo Torto
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Crônica – Energia pura do pó de estrela

Publicado:   Março 30, 2016   Categoria:Cronica torta , Vale o cliqueEscrito por:Letícia Cotta

Para se ler ao som de: The Danish Girl – (09) “To Dresden”, ou AIR – Alone in Tokyo.

Duas da tarde. Ela entra na sala, com seus cachos mais lindos e pretos como o céu noturno. Observo-a. Mexe no cabelo, dá sorrisos, entra na sala de reuniões e então se senta ao meu lado.

  • Olá. – digo, toda  animada, sem razão alguma. – Você tem exatamente o cabelo que eu sempre quis, em toda minha vida.

Seis da noite e nós já somos só sorrisos desvanecidos em meio aos céu fechado do escritório – entre as vidraças longas, os carros vão e vem, a vida lá fora passa tão lentamente quanto aqui.

  • Você vai para onde? Posso te dar uma carona. – sugeriu a moça.
Arte por: Chiara Bautista.
Arte por: Chiara Bautista.

Aceitei com a facilidade que uma criança tem de receber um presente. Um presente. Já são sete da noite e nós descemos no elevador, lindas, conversando sobre como a vida é dentro e fora do escritório.

  • Sabe, no meu primeiro trabalho eu achava que as pessoas eram tipo minions. – desabafei – Que elas deixavam de existir e “desligavam”, quando saíamos daquele lugar. Então comecei a ficar desesperada quando todo mundo começou a me encontrar na rua, me dando oi, me perguntando da vida… – continuei, entre risos. – E eu estava tipo “Não!!! Parem!!! Vocês não deviam existir fora do escritório! Que porra é essa?”

Ela concordou, dizendo que no começo era assim também – e que, tempos depois, descobriu que poderia fazer bons amigos nesses lugares. Me contou da sua inconstância no trabalho, da ida e vinda de empregos, do caos que era a vida de mãe solteira (agora, mãe casada, pela terceira vez). Me contou de como eram incompatíveis e nós rimos com todo o coração e energia possíveis, como velhas amigas. Então seu filho entrou no carro, todo loirinho, bravo, os olhos mais lindos que eu já tinha visto – cheios de lágrimas de ódio.

  • Você prometeu! E você nunca cumpre o que promete! – resmungou, entre fungos – Era pra eu estar no futsal e…

A inocência de uma criança. Já vivi nela, um dia. Tantas e tantas promessas, desfeitas e feitas outra vez. Recordo-me de todo o caos que era ter pais separados, das brigas infinitas e dos choros, de ambos, nas raras vezes que não percebiam que eu estava ali. O problema é que pensam que criança não entende. Entende, mas com mais dificuldade. Sorri o meu sorriso mais puro e sincero, cheio de ternura, e me virei para o banco de trás.

"Why won't you come back home?". Arte por: Chiara Bautista
“Why won’t you come back home?”. Arte por: Chiara Bautista
  • Sua mamãe me conheceu hoje, e nós nos demos tão bem! Acho que você consegue fazer amigos ainda melhor que ela! – disse, piscando um olho. – Mudar não é ruim, só é difícil. E quando você pega o jeito, acha a coisa mais divertida do mundo.

Ele ficou quieto, mas tocou minha mão quando a estendi, em trégua, para que os dois não brigassem. As vezes, só pessoas de fora conseguem apaziguar alguns assuntos de família. Sorrimos, e então ela ligou seu lado de mãe: começou a animá-lo, falar o quanto seria divertido, que o lugar novo era mais bonito, mais fresco… Ah! A sinceridade otimista de uma mãe, tudo para ver o filho feliz – e quem a via no escritório jamais entenderia esse lado, além do medo consciente que a moça tinha de acabar perdendo outro emprego.

Já adulta, agora entendia o porquê tudo havia acontecido. Então nós três nos permitimos sorrir, como velhas almas novas finalmente reunidas em um carro, momentaneamente. Talvez nos déssemos tão bem porque éramos a energia pura, e velha, do mesmo pó de estrela. Tudo que mais esperava enquanto olhava para aquele lindo céu estrelado e com uma Lua enorme, no entanto, era que todo o restante de pó que me fez, se reunisse todo em um só lugar. Em mim. Comigo.

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