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Especial dia das mulheres: lutar até vencer

Publicado:   março 9, 2016   Categoria:Feminista , Opinião , Sem categoriaEscrito por:Letícia Cotta
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Fonte: internet

Opção de som de fundo durante esta leitura: MARINA AND THE DIAMONDS | “SAVAGES”

Nós, aqui do Papo Torto, fizemos um post sobre dez ícones da cultura pop, neste Especial de Dia das Mulheres. Mas a parte feminina do site (este post é uma parceria entre Franciele Bessa e Letícia Cotta) resolveu protestar e mostrar o real motivo da data e seu impacto no curso da história – porém, ficaria cansativo demais para nossos leitores, então resolvemos tentar algo mais próximo do dia a dia do público.

Primeiro, vamos à parte mais fácil de se lidar:
Devemos comemorar o “dia das mulheres” todos os dias, sem jamais nos esquecermos das mulheres que morreram queimadas em uma indústria em prol de suas ideias, que de fato foram o motivo dessa comemoração internacional, ainda que em forma de luto. Ou seja, nós temos duas opções: ou comemorarmos todos os dias (lutando, arduamente, por nossos direitos e nos unindo de uma vez por todas – para que a morte delas, e de outras inúmeras mulheres, não seja em vão), ou utilizarmos a data como forma de luto. Luto por mulheres que, como nós, foram silenciadas. Que são. Que eram. Que serão.

A primeira opção parece melhor, não é?

A música anexada, logo acima, fala algo que aplicamos muito no feminismo (calma, público masculino, sem medo): “I’m not the only one who finds it hard to understand, I’m not afraid of God, I’m afraid of man (…) Another day, another tale of rape” (em tradução livre: “Não sou a única que acha isso difícil de entender, não tenho medo de Deus, tenho medo do homem. (…)Outro dia, outra história de estupro“)

Mas o medo ali descrito não é do homem em si, é do homem enquanto ser humano. No final das contas, igual Marina canta, “somos apenas selvagens, animais aprendendo a engatinhar”. Estamos muito longe do progresso, da igualdade de gêneros, e temos toda uma geração à frente.

Ser feminista não é querer ser melhor que os homens. Não é querer por fogo no mundo. E a verdade é que homem nenhum entende o medo que uma mulher passa caminhando sozinha de noite, voltando do trabalho – e a felicidade, alívio, ao encontrar outra mulher para lhe fazer companhia.

sororidade (que vamos definir aqui resumidamente como união/empatia entre as mulheres, reconhecerem-se como família, etc) vem desde muito antes do termo surgir. Mulheres, em inúmeras culturas, cuidam/cuidavam dos filhos umas das outras, todas juntas – e isso ocorre até com outros animais.

As mulheres sempre estiveram unidas. Por que parar agora?

Que 08 de Março seja lembrado como uma data de união, de sororidade: gorda, magra, alta, baixa, negra, branca, ruiva, careca, doente, jovem, idosa, trans, com distúrbio, sem distúrbio, e todos os tipos de mulheres que pudermos imaginar, espalhadas nesse mundão por aí.

Agora, vamos à parte mais difícil, onde a nossa linda (e carinhosamente chamada de) Fran resolveu desabafar:

Eu sei que o Dia Internacional da Mulher já passou, mas esse é um assunto sempre muito interessante para ser debatido todos os dias. Ontem (08), eu não estava me sentindo preparada para escrever este texto, mas ao mesmo tempo eu não podia me calar diante de tantos discursos que li e ouvi por aí, como ‘feliz dia da mulher para quem sabe se portar como uma’ ou ‘feliz dia da mulher para as mulheres de verdade e para as feministas, esperem o dia das crianças’.

Sério, eu nunca fiquei tão decepcionada e sem ânimo para falar sobre essas questões como ontem. Ainda no mesmo dia, tive a oportunidade de participar de uma CPI sobre violência contra a mulher na Câmara dos Deputados e fiquei alarmada com os números relatados durante a Comissão.

Vocês sabiam que a cada sete minutos uma nova denúncia de violência contra a mulher é feita? Ou que a cada uma hora e meia uma mulher morre apenas por questões de gênero? E diante desses dados e tantos outros, eu ainda preciso escutar todos os dias que feminismo não passa de mero ‘mimimi’. Tivemos nossas bocas tapadas por muito tempo, é evidente que essa voz agora saia um pouco aguda, desgrenhada e raivosa… Mas, nos entendam e percebam que essa mão ainda tenta nos calar e tapar as nossas bocas. Tivemos nossos corpos queimados, nossas genitálias mutiladas, fomos escravizadas.

Você acha que o dia da mulher existe simplesmente porque merecemos um dia? NÃO! Esse dia vem marcado por luta. Vem marcado por mulheres que tiveram seus corpos queimados em uma fábrica, porque não aceitavam mais trabalhar 16 horas, isso mesmo, DESESSEIS HORAS POR DIA e ganhar muito menos que um homem.

Ainda, em pleno 2016, temos que provar TODOS OS DIAS que nosso intelecto nada tem a ver com o nosso gênero. Que a culpa não é nossa se andamos na rua com medo de termos nossos direitos violados dentro dos ônibus, metrôs, na rua, no táxi e em qualquer lugar que tenha um homem. Ou então, que tudo bem você gostar de coisas de meninos, mas que esses meninos não se atrevam a gostar de coisas de meninas, porque é ruim. Ser mulher não é bom.

Somos o sexo frágil, apesar de trabalharmos, estudarmos, sermos mães, cuidar da casa e dos filhos, aguentar a dor do parto, dentre tantas outras coisas. Ainda somos o sexo frágil. Ainda devemos nos calar diante de um homem. AINDA DEVEMOS SAIR ACOMPANHADAS DE OUTROS HOMENS, PORQUE HOMEM NÃO RESPEITA MULHER, SÓ UM IGUAL A ELE. Ou vocês já se esqueceram das duas jovens que foram fazer um mochilão pela América do Sul e foram estupradas e mortas?

É isso, esse é o meu desabafo. Lutamos não porque queremos privilégios. Lutamos porque queremos igualdade. Porque quero receber o meu salário de acordo com a minha competência e não de acordo com o meu gênero

Cerca de 50 mil mulheres são estupradas por ano no Brasil. E se você não liga para as mulheres, olhe ao redor, faça pesquisas, analise a mídia – a morte de uma mulher é quase tão recorrente quanto qualquer outro tipo de violência no Brasil. Mulheres não tem medos, traumas, à toa.

Mulher nenhuma é histérica. Mulher nenhuma é louca.

O que existe são mulheres que passaram (e/ou passam) por coisas horríveis, que nem sororidade e nem abraço ou apoio nenhum são capazes de curar, e que tomam atitudes extremas por estarem cansadas de ouvir sempre o mesmo discurso (como descrito pela Fran, por exemplo).

Já notaram, na rua, que os homens sempre andam despreocupados e as mulheres com a cara mais fechada? Que cada dia mais são criadas políticas de (praticamente) segregação para proteção das mulheres? Pensem nos vagões de metrô, por exemplo – que criaram muita discussão, e até mesmo entre as próprias feministas. Um vagão de metrô exclusivo para as mulheres só pelo medo, pela vergonha e tormenta do assédio – e que, ao mesmo tempo, nos enjaula ainda mais, mostrando-nos frágeis, indefensáveis, histéricas, sem necessariamente sermos quaisquer coisas dessas.

Novamente: Mulheres, por que pararmos agora?

Não se deixem calar.

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